Ela ela analfabeta, sabendo apenas escrever o nome e por força disso era eu que lhe lia os aerogramas do irmão e que depois os respondia.
Por vezes, quando me lembrava, lá passava pela junta de freguesia a trazer uma mão cheia de aerogramas para ela me ditar tudo aquilo que queria dizer ao irmão que fintava a morte em cada saída para o mato da Guiné.
Naquele dia resolvi abrir o aerograma antes de o entregar a ela, porque reparei que a letra não era a do António. De facto, daquela vez quem escrevia era o furriel Barbosa para dizer que o António estava internado em Bissau na sequência de ter sido ferido numa emboscada. Fora projectado do Jeep pelo rebentamento de uma mina e ficara literalmente com o peito aberto. Estava em coma e não havia grandes esperanças que pudesse sobreviver. Recordo-me que terminei a leitura em voz alta e a chorar copiosamente.
Pela minha cabeça passaram algumas imagens de bons momentos passados na companhia do António, sempre bem disposto, sempre com uma inesgotável paciência para aturar o garoto de 10 anos que eu era. Não era possível que o meu amigo fosse morrer naquela terra com tantos rios que eu tivera de decorar para o exame da 4ª classe. Havia qualquer coisa que me dizia que ele venceria a luta que travava na cama do hospital.
O meu drama estava em saber como dar a noticia à Isabel. Como iria ela reagir era algo que não conseguia nem pensar e foi assim que tomei a decisão de não lhe ler o aerograma. Quando ela chegou fiz de conta que tudo estava bem e à sua pergunta se havia correio respondi com um não todo sorridente. Entretanto, há medida que o tempo passava começava a preocupar-me com a continuação da história, e se o António acabasse mesmo por morrer? Talvez profeticamente ele tinha dito antes de partir que a família recebia do exercito um telegrama em caso de morte do militar e isto deixou-me de certa forma mais tranquilo porque nunca seria um aerograma a dar a pior das noticias. De repente, Isabel pediu-me para escrever ao irmão. Disse-me que sonhara com ele e que o sonho não tinha sido nada bom. Vira-o com a farda cheia de sangue tombado no chão. Precisava de lhe escrever para aliviar a cabeça dos maus pensamentos. Isabel ditava e eu escrevia no papel azul do aerograma as palavras que talvez António nunca chegasse a ler. A partir de certa altura deixei de ouvir o que me ditava e passei a escrever o que eu queria dizer ao meu amigo. Comecei por me justificar, por lhe pedir desculpa por não ter contado à irmã o que lhe tinha acontecido. Lembro-me que terminei dizendo-lhe que tinha a certeza que o iria abraçar de novo em Lisboa e que já tinha saudades dos passeios que dávamos. Passados alguns dias chegou outro aerograma ainda escrito pelo Furriel, mas já com a boa notícia de que o António saira do coma e que ficara conhecido como o morto-vivo. Já estava consciente embora imobilizado no leito do hospital e com a preocupação de que ele, Furriel escrevesse à irmã e não se esquecesse de mandar um abraço ao Carlitos.
Ela era analfabeta, sabendo apenas escrever o nome e por força disso corri nesse dia para lhe dizer que tínhamos noticias do António e que se ela quisesse podia responder-lhe nessa mesma noite.
Por vezes, quando me lembrava, lá passava pela junta de freguesia a trazer uma mão cheia de aerogramas para ela me ditar tudo aquilo que queria dizer ao irmão que fintava a morte em cada saída para o mato da Guiné.
Naquele dia resolvi abrir o aerograma antes de o entregar a ela, porque reparei que a letra não era a do António. De facto, daquela vez quem escrevia era o furriel Barbosa para dizer que o António estava internado em Bissau na sequência de ter sido ferido numa emboscada. Fora projectado do Jeep pelo rebentamento de uma mina e ficara literalmente com o peito aberto. Estava em coma e não havia grandes esperanças que pudesse sobreviver. Recordo-me que terminei a leitura em voz alta e a chorar copiosamente.
Pela minha cabeça passaram algumas imagens de bons momentos passados na companhia do António, sempre bem disposto, sempre com uma inesgotável paciência para aturar o garoto de 10 anos que eu era. Não era possível que o meu amigo fosse morrer naquela terra com tantos rios que eu tivera de decorar para o exame da 4ª classe. Havia qualquer coisa que me dizia que ele venceria a luta que travava na cama do hospital.
O meu drama estava em saber como dar a noticia à Isabel. Como iria ela reagir era algo que não conseguia nem pensar e foi assim que tomei a decisão de não lhe ler o aerograma. Quando ela chegou fiz de conta que tudo estava bem e à sua pergunta se havia correio respondi com um não todo sorridente. Entretanto, há medida que o tempo passava começava a preocupar-me com a continuação da história, e se o António acabasse mesmo por morrer? Talvez profeticamente ele tinha dito antes de partir que a família recebia do exercito um telegrama em caso de morte do militar e isto deixou-me de certa forma mais tranquilo porque nunca seria um aerograma a dar a pior das noticias. De repente, Isabel pediu-me para escrever ao irmão. Disse-me que sonhara com ele e que o sonho não tinha sido nada bom. Vira-o com a farda cheia de sangue tombado no chão. Precisava de lhe escrever para aliviar a cabeça dos maus pensamentos. Isabel ditava e eu escrevia no papel azul do aerograma as palavras que talvez António nunca chegasse a ler. A partir de certa altura deixei de ouvir o que me ditava e passei a escrever o que eu queria dizer ao meu amigo. Comecei por me justificar, por lhe pedir desculpa por não ter contado à irmã o que lhe tinha acontecido. Lembro-me que terminei dizendo-lhe que tinha a certeza que o iria abraçar de novo em Lisboa e que já tinha saudades dos passeios que dávamos. Passados alguns dias chegou outro aerograma ainda escrito pelo Furriel, mas já com a boa notícia de que o António saira do coma e que ficara conhecido como o morto-vivo. Já estava consciente embora imobilizado no leito do hospital e com a preocupação de que ele, Furriel escrevesse à irmã e não se esquecesse de mandar um abraço ao Carlitos.
Ela era analfabeta, sabendo apenas escrever o nome e por força disso corri nesse dia para lhe dizer que tínhamos noticias do António e que se ela quisesse podia responder-lhe nessa mesma noite.