segunda-feira, 17 de maio de 2010

A jangada dos tolos

Não quero que este blog se transforme numa espécie de obituário lamechas onde a propósito da morte de alguém fique para aqui a tecer loas e/ou a justificar a importância da pessoa falecida na construção do meu Eu.
Ainda por cima, quando deixei que os sons do silêncio invadissem durante meses este espaço que queria que fosse de reflexão e de vida, talvez devesse quebrar o jejum da escrita de uma outra maneira.
Porém, a morte de José Luís Saldanha Sanchez obriga-me a prestar-lhe uma modestissima homenagem trazendo à vossa reflexão uma crónica da sua autoria publicada no Expresso de 31 de Outubro de 2009 e, na qual, ele cumpriu bem aquele poema de Ricardo Reis de que tanto gosto
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

Fiquem, pois, com esta Jangada de Tolos e digam lá se José Luís Saldanha Sanchez não nos faz falta...


"O Autor Laureado (AL): 'Sr. dr., cheguei a uma altura da minha vida em que finalmente o meu labor incansável foi compensado. Vendo bastante por toda a parte e pagam-me bem. Mas aqueles ladrões do fisco ficam-me com tudo. O que me aconselha?'

O Consultor Fiscal (CF): 'Que quer, meu caro Mestre, isto é o país da inveja. Em vez de premiar o mérito, tributa-se. Mas talvez tenhamos algumas soluções. Qual a origem dos seus rendimentos?'

AL: 'Uns são de cá, mas outros são do resto do mundo'.

CF: 'Óptimo. Está disposto a mudar de país?'

AL: 'Claro, estou farto desta piolheira. Este país não me merece'.

CF: 'O que me diz de Londres, meu caro Mestre? Nem precisa de mudar a nacionalidade, basta residir lá. Tem uma vida cultural muito intensa: museus, música, teatro'.

AL: 'Ora, ora... arte burguesa e decadente. Literatura e teatro que não estejam ao serviço da transformação social não me interessam nada'.

CF: 'Claro, claro, meu caro Mestre. Esquecia-me que está de alma e coração com os explorados deste mundo. Como diz a canção: "De pé, famélicos da terra..."'

AL: 'Não é canção, homem, é hino. Deixe lá isso. Em Londres as casas são caríssimas e está a ver-me a morar num bairro social com aquela gentinha? Outra solução'.

CF (encavacado): 'Bermudas, Ilhas Caimão, Panamá?'

AL: 'Detesto esses arrabaldes do imperialismo norte-americano. Um amigo da minha mulher falou-me das Canárias: diz que dá para uns arranjos fiscais muito interessantes. E está na União Europeia, essa coisa'.

CF: 'Não conheço. Mas vou ligar para o nosso escritório em Madrid'.

(Uns minutos depois)

CF: 'Já sei. Está tudo na net. É o Regime Económico Fiscal das Canárias, autorizado por Bruxelas por ser uma zona ultraperiférica. Como a Madeira, mas em bom...'

AL: 'Madeira!? Eu não quero nada com a Madeira... Sempre ouvi dizer que aquilo era uma completa pouca vergonha'.

CF: 'Não, não, é outra coisa. Até podemos sustentar que não é bem um paraíso fiscal. Mas se obtiver rendimentos e os reinvestir, ou fizer uma reserva, pode ter uma vantagem até 90%. Isso é que interessa!'

AL: 'Reinvestir!? Então tenho que ser empresário? Homem, poupe-me. Eu não posso com essa gente. Não sou nenhum explorador do povo'.

CF: 'Reinvestir é um modo de dizer. Tudo se arranja. Compra títulos de dívida pública das Canárias, com juros, ou certo tipo de activos, e está reinvestido. Para os rendimentos vindos de fora, se conseguirmos que sejam tratados como royalties, a taxa é muito baixa'.

AL: 'E isso não é ilegal? E não dará má-língua, falatório? Sabe, a minha imagem...'

CF: 'Perfeitamente legal. E só nós, consultores fiscais, é que sabemos disto e não temos o hábito de falar de coisas que possam prejudicar os nossos clientes'.

AL: 'E quanto aos rendimentos que vêm de Portugal? Como é que posso escapar?'

CF: 'Mestre, os direitos de autor já pagam tão pouco... Mas faça uma fundação. Para a defesa do ambiente, ajuda aos mais pobres, essas coisas. Assim sempre tem um escritório em Lisboa. Dá sempre jeito'.

AL: 'Boa ideia! E ainda hei-de conseguir que um político qualquer me dê uma sede. Até tenho uma debaixo de olho. Eu sei muito bem como se lida com essa gente...'

*Fiscalista"

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As mesmas palavras, outras ideias

Não sei o que fazer.
Não fazer o que sei.
O que sei não fazer.
Sei o que não fazer.
Fazer o que não sei.
O que fazer não sei.

PS: Convido-vos a alterar a ordem das frases/afirmações. Verão que as ideias são sempre diferentes consoante a ordem do seu alinhamento.
Afinal, Lobo Antunes tem razão: difícil é mesmo transmitir ideias. Este sim, é o verdadeiro papel de quem escreve.