De que vale falar de monumentos, de edifícios classificados, enfim, de pedras que nos contam séculos e séculos da história de Lisboa, se não colocarmos nos monumentos, nos edifícios classificados e em cada pedra, as pessoas que ali viveram?
Talvez por ter nascido e sempre vivido no centro de Lisboa, na zona mais antiga da capital dou por mim muitas vezes a imaginar cenas e personagens do passado quando passo por certos lugares.
Habituei-me há muitos anos a ser assim uma espécie de arqueólogo de espectros que, mais do que as pedras, preocupa em apanhar os que viveram naqueles lugares e lhes conferiram significado.
Fazer o caminho do Liceu para casa era desde logo optar entre uma viagem à nossa primeira universidade ali nas escolas gerais ou pelo trajecto que baptizei do caminho das três prisões, porque passava pelas monicas, pelo limoeiro e pelo aljube.
A escolha dependia do meu estado de espírito, se alegre preferia as escolas gerais onde imaginava a eterna rebeldia dos estudantes, mas se triste lá seguia pela amargura da prisão de mulheres, pela prisão de criminosos comuns e, por fim, a prisão dos presos políticos.
Ainda hoje ouço aquelas vozes que me chamavam para uma breve e fugaz troca de palavras, ou para um pedido de um cigarro que eu não tinha, ainda hoje vejo aquelas mãos a acenar por detrás daquelas janelas fortemente gradeadas que as privavam de apertar a minha mão livre.
Quem eram? Não sei, nunca soube a sua identidade, sei e sempre soube que sofriam e que não eram felizes, porque as suas vozes e as suas mãos nunca me enganaram a esse respeito.
Depois imaginava que me cruzava com o mais célebre franciscano, depois do próprio Francisco de Assis, o nosso Sto. António nascido Fernando de Bolhões ali bem junto à Sé.
Mais abaixo via passar o Sr. Pessoa a caminho do Martinho, ainda a limpar o bigodinho depois de ter emborcado mais um cálice de água ardente no Vale do Rio.
Por pouco não se cruzou com o jovem Cesário Verde ali na esquina da Rua dos Fanqueiros com a Rua do Comércio onde a família Verde tinha o seu negócio e onde o autor de Sentimento de um Ocidental, passou uma boa parte da sua curta vida.
Os anos que entretanto passaram tiveram o condão de aumentar significativamente o número de espectros que vivem alegres na minha cidade.
Tive a felicidade de conhecer muitos deles ou simplesmente de os ver nos lugares que frequentavam num tempo em que Lisboa tinha tertúlias e se gabava disso.
Talvez por ter nascido e sempre vivido no centro de Lisboa, na zona mais antiga da capital dou por mim muitas vezes a imaginar cenas e personagens do passado quando passo por certos lugares.
Habituei-me há muitos anos a ser assim uma espécie de arqueólogo de espectros que, mais do que as pedras, preocupa em apanhar os que viveram naqueles lugares e lhes conferiram significado.
Fazer o caminho do Liceu para casa era desde logo optar entre uma viagem à nossa primeira universidade ali nas escolas gerais ou pelo trajecto que baptizei do caminho das três prisões, porque passava pelas monicas, pelo limoeiro e pelo aljube.
A escolha dependia do meu estado de espírito, se alegre preferia as escolas gerais onde imaginava a eterna rebeldia dos estudantes, mas se triste lá seguia pela amargura da prisão de mulheres, pela prisão de criminosos comuns e, por fim, a prisão dos presos políticos.
Ainda hoje ouço aquelas vozes que me chamavam para uma breve e fugaz troca de palavras, ou para um pedido de um cigarro que eu não tinha, ainda hoje vejo aquelas mãos a acenar por detrás daquelas janelas fortemente gradeadas que as privavam de apertar a minha mão livre.
Quem eram? Não sei, nunca soube a sua identidade, sei e sempre soube que sofriam e que não eram felizes, porque as suas vozes e as suas mãos nunca me enganaram a esse respeito.
Depois imaginava que me cruzava com o mais célebre franciscano, depois do próprio Francisco de Assis, o nosso Sto. António nascido Fernando de Bolhões ali bem junto à Sé.
Mais abaixo via passar o Sr. Pessoa a caminho do Martinho, ainda a limpar o bigodinho depois de ter emborcado mais um cálice de água ardente no Vale do Rio.
Por pouco não se cruzou com o jovem Cesário Verde ali na esquina da Rua dos Fanqueiros com a Rua do Comércio onde a família Verde tinha o seu negócio e onde o autor de Sentimento de um Ocidental, passou uma boa parte da sua curta vida.
Os anos que entretanto passaram tiveram o condão de aumentar significativamente o número de espectros que vivem alegres na minha cidade.
Tive a felicidade de conhecer muitos deles ou simplesmente de os ver nos lugares que frequentavam num tempo em que Lisboa tinha tertúlias e se gabava disso.
Ali vai o Romeu Correia para o Café Bom que hoje é um armazém de indianos.
Além segue o José Cardoso Pires em direcção à Rua do Arsenal e ao seu British Bar.
Nas portas do sol vejo o Arnaldo a pintar mais um dos seus nocturnos como só ele consegue fazer.
Não vos maço mais com os meus espectros, com a minha saudade que não sei disfarçar.
Fiquem com tudo aquilo que quiserem, porque eu sou feliz a deambular pelos passeios da minha velha Lisboa e nada mais vos peço que não seja a liberdade de passear.