segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A outra cidade

De que vale falar de monumentos, de edifícios classificados, enfim, de pedras que nos contam séculos e séculos da história de Lisboa, se não colocarmos nos monumentos, nos edifícios classificados e em cada pedra, as pessoas que ali viveram?

Talvez por ter nascido e sempre vivido no centro de Lisboa, na zona mais antiga da capital dou por mim muitas vezes a imaginar cenas e personagens do passado quando passo por certos lugares.
Habituei-me há muitos anos a ser assim uma espécie de arqueólogo de espectros que, mais do que as pedras, preocupa em apanhar os que viveram naqueles lugares e lhes conferiram significado.
Fazer o caminho do Liceu para casa era desde logo optar entre uma viagem à nossa primeira universidade ali nas escolas gerais ou pelo trajecto que baptizei do caminho das três prisões, porque passava pelas monicas, pelo limoeiro e pelo aljube.
A escolha dependia do meu estado de espírito, se alegre preferia as escolas gerais onde imaginava a eterna rebeldia dos estudantes, mas se triste lá seguia pela amargura da prisão de mulheres, pela prisão de criminosos comuns e, por fim, a prisão dos presos políticos.
Ainda hoje ouço aquelas vozes que me chamavam para uma breve e fugaz troca de palavras, ou para um pedido de um cigarro que eu não tinha, ainda hoje vejo aquelas mãos a acenar por detrás daquelas janelas fortemente gradeadas que as privavam de apertar a minha mão livre.
Quem eram? Não sei, nunca soube a sua identidade, sei e sempre soube que sofriam e que não eram felizes, porque as suas vozes e as suas mãos nunca me enganaram a esse respeito.
Depois imaginava que me cruzava com o mais célebre franciscano, depois do próprio Francisco de Assis, o nosso Sto. António nascido Fernando de Bolhões ali bem junto à Sé.
Mais abaixo via passar o Sr. Pessoa a caminho do Martinho, ainda a limpar o bigodinho depois de ter emborcado mais um cálice de água ardente no Vale do Rio.
Por pouco não se cruzou com o jovem Cesário Verde ali na esquina da Rua dos Fanqueiros com a Rua do Comércio onde a família Verde tinha o seu negócio e onde o autor de Sentimento de um Ocidental, passou uma boa parte da sua curta vida.
Os anos que entretanto passaram tiveram o condão de aumentar significativamente o número de espectros que vivem alegres na minha cidade.
Tive a felicidade de conhecer muitos deles ou simplesmente de os ver nos lugares que frequentavam num tempo em que Lisboa tinha tertúlias e se gabava disso.
Ali vai o Romeu Correia para o Café Bom que hoje é um armazém de indianos.
Além segue o José Cardoso Pires em direcção à Rua do Arsenal e ao seu British Bar.
Nas portas do sol vejo o Arnaldo a pintar mais um dos seus nocturnos como só ele consegue fazer.
Não vos maço mais com os meus espectros, com a minha saudade que não sei disfarçar.
Fiquem com tudo aquilo que quiserem, porque eu sou feliz a deambular pelos passeios da minha velha Lisboa e nada mais vos peço que não seja a liberdade de passear.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Poema

As palavras quebradas são malditas
As palavras que bradas são mal ditas
Porque se quebram elas e porque as gritas?
Fazes de arrumador de ideias inteiras
Tal como as palavras o são
Quando se arruma a dor no meio da confusão

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tão despachada que ela é

AMarilu das meiguisses pensa que se livrou de uma arreliadora dor de cabeça com um despacho feito a um domingo possivelmente no meio da confusão que reina no seu novo apartamento de cobertura na Avenida de Roma, por causa das obras de remodelação, mas pobre dela, engana-se.
Despachada como sempre, prontificou-se a informar Urbi et Orbi que o seu despacho domingueiro era meramente interpretativo, destinado a fazer luz sobre uma certa expressão contida numa norma do estatuto do aluno que algumas escolas estariam a interpretar erradamente.
Desleixada, impreparada, incompetente como é, quer enganar-nos com uma uma estupidez jurídica que o pior aluno de Direito Constitucional detectaria sem qualquer dificuldade: megalomana, está convencida de que uma lei da Assembleia da República pode ser alterada através de um Despacho Ministerial !
Pois é, ao contrário do que Marilu afirma, esclarecer a questão das faltas por doença ao retirá-las da expressão "Independentemente da sua natureza é introduzir uma excepção na previsão legal", ou seja, é alterar a letra da lei, porque independentemente da sua natureza não deixa margem para dúvidas, é uma expressão unívoca.
O equívoco é a própria Marilu das meiguisses e a forma como exerce as suas funções!
Vamos ajudar Marilu a ser feliz,dispensando o seu sacrifício à causa pública.
Que o correio electrónico do Ministério da Educação seja inundado por e-mails que apelem à demissão daquela que jamais teria sido Ministra se a nomeação implicasse mérito, competência, pudor e honestidade intelectual !

domingo, 16 de novembro de 2008

Os ciclos da contestação

Parecia até que os jovens portugueses tinham perdido o desejo de se revoltar contra a
tirania das gerações mais velhas. Vivia-se num marasmo onde nada acontecia que quebrasse a monotonia dos dias que se sucediam tristonhos, desinteressantes e estúpidos.
Ninguém parecia interessar-se por política, porque isso era uma enorme chatice e de repente, eis que ouve um súbito despertar das consciências dos jovens que decidiram gritar “BASTA!”.
Mais de 34 anos leva o novo regime político saído do golpe militar de 25/04/1974 e os problemas da juventude não só continuam por resolver, como também se vão agravando ano após ano, sem que se veja qualquer solução para eles.
De experiência em experiência, o ensino em Portugal não tem feito outra coisa que não seja criar técnicos de ideias gerais que passam pelo menos 12 anos na escola para saírem sem qualquer profissão!
Destruíram-se as escolas e os institutos comerciais, as escolas e os institutos industriais, como também se destruíram os liceus, tudo em nome daquilo que uns certos senhores muito ententidos em educação chamaram de escola democrática.
Em vez de se introduzirem os mecanismos próprios da democracia no funcionamento das escolas, optou-se pela eliminação pura e simples de tudo aquilo que funcionava bem em termos de formação dos jovens para as várias carreiras profissionais que desejassem seguir.
Fez-se o já habitual nivelamento por baixo, arrasando por completo o aparecimento de elites indispensáveis ao desenvolvimento do país. É com alegria que assistimos ao regresso dos estudantes à luta contra decisões esquizofrénicas que sempre procuram tramá-los, fazendo uso das manifestações de rua agora convocadas por sms, nas quais os partidos políticos não são tidos nem achados.
Mais do que nunca, hoje mais do que ontem estão reunidas as condições para que as ideias libertárias se espalhem crescentemente pelas consciências férteis dos nossos jovens.
Há uma ânsia de gritar liberdade, de mudar um estado de coisas apodrecido, de destruir quem pretende destruir a rebeldia e criatividade da juventude, exijam, reivindiquem, lutem, porque se não o fizerem aqueles que estão há 34 anos a comer da gamela do Poder, continuaram a cagar-lhes em cima e a pedir-vos que se calem, que sejam pacientes, que sejam bonzinhos, em suma, que não chateiem.


Envoquemos aqui e agora a voz de Natália Correia, porque as suas palavras continuam a fazer sentido e a mostrar-nos qual o caminho a seguir:

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Boas Recordações

Em 1973 os Procol Harum lançaram o álbum Grand Hotel, o qual consagrou o grupo como um dos mais originais de sempre.
O sucesso já tinha sido alcançado antes com um estrondoso hit chamado a white shade of pale há precisamente 41 anos, meu deus como o tempo passa!
Voltando ao álbum Grand Hotel, ele tinha/tem a particularidade de ser dançável, o que constituía uma vantagem a seu favor em termos da malta gostar de o ter para o tocar nas festas de garagem.
Hoje, quero ser original e deixar-vos não uma, mas duas músicas com a sua historia peculiar.
A primeira é Souvenir of London e conta-nos as aventuras de um rapaz que viaja até Londres e de onde regressa com uma doença venérea como recordação, o que é um tema bem atrevido para 1973.
A segunda é a música que dá o seu nome ao álbum, ou seja, Grand Hotel e não sou o único a ter boas recordações quando a ouço. Então que a música esteja convosco!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

De 28/08/1963 a 4/11/2008 ou o caminho do sonho até à realidade?

Há 45 anos Martin Luther King proferiu um sermão que hoje faz parte integrante da História da Humanidade, sobretudo os seus últimos 2min e 50 segundos.
Naquele dia de Agosto de 1963 em plena América Segregacionista uma voz ousou desafiar o Establishment e clamou que tinha um sonho. Pouco depois, no ano seguinte, outorgavam-lhe o Prémio Nobel da Paz.
Martin Luther King viveu apenas cerca de 4 anos e 8 meses após esse sermão, tempo este em que contribuiu decisivamente para que a face da América mudasse, acabando por ser assassinado precisamente no mesmo ano em que um segundo Kennedy, no caso Robert, também encontrou a morte quando tudo indicava que seria o próximo presidente americano.
Mataram o homem, mas não mataram o sonho, que entretanto foi sendo pouco a pouco assumido por um número crescente de Norte Americanos de todas as raças e credos e não apenas os negros a quem Martin Luther King se dirigia naquele dia de Verão de 1963.
40 anos passados sobre o desaparecimento do Dr. King eis que a América lhe dá finalmente razão e aceita com euforia que o ocupante da célebre sala oval da Casa Branca seja um negro.
Barack Obama tem em comum com Martin Luther King a eloquência e o carisma dos grandes líderes da Humanidade.
Como homenagem singela à memória do visionário que um dia sonhou a América que hoje existe deixo-vos os famosos 2 minutos e 50 com que Martin Luther King concluiu o seu empolgante sermão: