sábado, 23 de fevereiro de 2008

Eleições Americanas I

O ódio ao senhor Bush tem contribuído para que os nossos jornalistas reduzam a corrida à Casa Branca aos dois candidatos do Partido Democrático.
Do alto da sua cátedra vão tecendo elogios ao Sr. Obama e à Sra. Clinton, fazendo- o sempre com a habitual pobreza de argumentos e de conteúdos, reduzindo a questão ao nível de um concurso de popularidade.
Enchem-nos os ouvidos com a história de que o povo americano anseia por uma mudança na Casa Branca e que, por isso, o próximo ocupante da sala oval será ou um negro ou uma mulher.
Nada nos dizem, nada informam acerca dos programas de cada um dos candidatos, mas não deixam de nos massar com tanta ignorância e incompetência.
Então, que tal repararem num certo Sr. McCain e no facto de ele representar para o tal povo americano aquele herói que faz da honestidade, da lealdade e do patriotismo o lema da sua vida?
John McCain passou pela terrível experiencia de ter sido prisioneiro de guerra dos Vietcong, tendo estado cinco anos nas mãos dos Vietnamitas de Hanói.
Podia ter sido libertado mais cedo, evitando que o seu cativeiro se arrastasse por mais dois anos.
Em vez disso, em vez do seu bem-estar e da sua felicidade, John McCain optou por ficar com os seus homens até que todos fossem libertados.
Não se esqueçam que o processo individual de decisão assenta em pormenores que no seu conjunto fazem a diferença.
Recuperando aquele exemplo clássico dos velhos manuais de Ciência Política devemos perguntar a cada cidadão americano se compraria um electrodoméstico ao Sr. Obama ou à Sr. Clinton, ou então ao Sr. McCain e depois logo podemos tirar uma conclusão!
Vá, vá lá, proponho ao meu leitor que faça essa experiencia: compraria um frigorífico ao Sr. Obama? E à Sra. Clinton compraria um microondas? E se o vendedor fosse o Sr. McCain, compraria o forno eléctrico que ele recomendasse?
Pois é, por mais voltas que nos obriguem a dar acabamos sempre por esbarrar naquilo que mais desejamos que um político tenha - credibilidade!
Infelizmente, credibilidade é algo que os politicos potugueses não têm...

A falar é que a gente se entende...

Ao longo dos anos, tenho ouvido e lido palavras ou expressões que são exemplos perfeitos de como se fala tão mal a nossa língua.
Refiro-me apenas a palavras ou expressões que são criadas pelos seus autores com aquele ar de quem está a dizer algo com absoluta correcção e propriedade, deixando de lado os erros gramaticais propriamente ditos.
Eis, então, uma amostra dessas pérolas de criatividade e imaginação:
- nunos e cargos, quando queriam dizer onus e encargos;
- depositar o calção, quando o que estava em causa era a caução;
- operado à próxima, quando a cirurgia foi à próstata;
- carro partúria, em vez de carro patrulha;
- uso e campeão, em vez de uso capeão;
- prédio omissaro na matriz, em vez de prédio omisso na matriz;
- hoquissigénio, em vez de oxigénio;
- escola José Fadóbidos, em vez de escola Josefa de Óbidos;
- cônjugue, em vez de cônjuge;
- azuleijo, em vez de azulejo (esta foi escrita numa sentença!!!);
- secador da letra, em vez de sacador da letra;
- toxindependente, em vez de toxico-dependente;

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O caso Maddie: uma pergunta incómoda

Muito se disse e se vai dizendo sobre o caso da menina inglesa. Porém, há uma pergunta que ainda não foi posta, não obstante a sua importância para o entendimento de muitas coisas que estão ainda por explicar: quem decidiu entregar o apartamento ocupado pela família McCain após um único exame ao local para recolha de provas? Já agora, gostava que a resposta fosse devidamente fundamentada, ou seja, além de se ficar a saber quem foi o astuto polícia (ou terá sido um político?) que considerou não valer a pena selar o apartamento e desse modo salvaguardar o local para futuros exames determinados pela evolução da investigação, seria bom conhecer todo o processo mental que conduziu a essa decisão imprópria até para um principiante.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Evangelho segundo S. Rubi

Naquele tempo Lisboa era uma cidade repleta de cafés com mesas de tampo de mármore e empregados solícitos a atender a clientela.
O “Café Bom” na rua dos Condes de Monsanto, entre a Praça da Figueira e o Poço do Borratém era um desses estabelecimentos onde se matavam as horas entre bicas saborosas e conversas sem fim cuja clientela era uma verdadeira galeria de tipos sociais.
Ali podíamos encontrar tanto o escritor Romeu Correia, autor de “Gandaia” e o “Céu da Minha Terra” entre tantas outras obras imperdíveis, numa mesa junto à grande janela embrenhado na sua escrita entrecortada com uns goles de Brandi, como o Luís Ramos, velho contrabandista de relógios e pequenas jóias de adorno.
Também por lá andava o Rubi, carteirista de meia-idade, sempre impecavelmente vestido de fato completo, cabelo penteado com brilhantina e na botoeira da lapela um refulgente emblema do Benfica em ouro e brilhantes.
Naquele dia Rubi aguardava que o movimento de passageiros nos eléctricos aumentasse o suficiente para justificar a sua saída para a rua. Observava com aparente indiferença os eléctricos que iam desfilando diante de si e de repente comunicou aos presentes que estava na hora de ir trabalhar - já venho, ficam aqui os jornais. Vou picar o próximo que passar.
Queria com isto dizer que saltaria para o próximo eléctrico que se aproximasse para curvar para o Poço do Borratém. Sim, os eléctricos tinham então na sua maioria meias-portas de lagarto recolhidas para permitir a entrada e a saída dos passageiros em qualquer ponto do trajecto.
Mal ele saiu, peguei no Diário de Notícias e, comecei a ler os títulos para o Sr. Vergílio reformado da Marinha e analfabeto daqueles que só sabiam assinar o nome.
Não teriam passado mais de cinco minutos quando o Rubi regressou e mesmo antes de voltar a sentar-se exclamou para o empregado: Ó Ângelo traz-me um café e um bagaço depressa, antes que eu desate para aqui a chorar.
A coisa prometia. O que é que se teria passado para ele ficar naquele estado? – não foi preciso perguntar-lhe porque o desabafo foi imediato:
- Vocês querem lá ver o que me aconteceu. Mal entrei no eléctrico vi uma mulher com uma mala preta que me deu uma grande fezada. Não tive trabalho nenhum para lhe servir o cabedal (tirar a carteira) e, assim que o filei (agarrei) vi que estava gordo. Não resisti e dei uma espreitadela para ver a guita (dinheiro) que tinha. Vocês não acreditam, mas aquilo eram só receitas e papéis do hospital. A mulher não tinha uma nota e eu olhei para ela como se alguma coisa me obrigasse a fazê-lo. Ela tinha mesmo aspecto de quem está muito doente e ainda por cima tinha um ar tão triste que sei lá. Olhem, tirei dois pintores (igual a 200 escudos) do bolso e meti-lhos na carteira. Depois, tornei a pôr-lhe a carteirita dentro da mala e disse-lhe antes de lhe tirar que ela tinha a mala aberta.
O relato deixou-nos espantados e comovidos com aquele gesto de amor pelo próximo.
Antes que pudéssemos dizer o que quer que fosse, ainda ouvimos o Rubi rematar: se calhar 200 escudos não chegam para aviar as receitas. Devia ter deixado mais qualquer coisa, vocês não acham?
A partir daquele dia o Rubi passou a ter a minha admiração de jovem adolescente e a minha sincera preocupação de que nada de mal lhe sucedesse. É que às vezes o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo também é escrito por pecadores e eu tive naquele dia oportunidade de assistir à Parábola do Carteirista que cumpria o mandamento “ama o teu próximo como a ti mesmo”.

Nota: No início dos anos 70 do século passado, um café custava 1 escudo e 50 centavos, pelo que 200 escudos doados pelo Rubi permitiam comprar 133 bicas. Transpondo para a actualidade, quem quiser consumir 133 cafés/bicas terá que desembolsar cerca de 66,5 euros, tomando por base o preço unitário de 50 cêntimos.
Para outra tomada de compreensão do gesto em apreço, relembrarei que 1 bilhete de eléctrico custava 1 escudo, uma posta de bacalhau custava 1 escudo e 50 centavos e um conjunto posta + rabo 2 escudos e 50 centavos.
Por tudo isto podemos ter a certeza de que os 200 escudos fizeram muito jeito à pobre senhora.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Um Caso Singular

ML tem 30 anos e viveu durante os últimos 11 em Inglaterra, país onde fez os seus estudos universitários até ao doutoramento abruptamente interrompido no Verão passado, altura em que decidiu regressar a Portugal.
Na base do seu regresso não esteve qualquer questão da sua carreira profissional ou académica, mas tão só o propósito de viver em paz com a sua filha e de acomapanhar o desenvolvimento desta sem sobressaltos.
Para trás deixou não só o doutoramento interrompido, como um lugar de destaque num laboratório de uma multinacional, mas sobretudo um casamento atribulado com um cidadão Colombiano, casamento este que apenas existe no Reino Unido, porque não está transcrito nem em Portugal nem na Colombia. Dito de outro modo, ML é para todos os efeitos solteira segundo a lei portuguesa e é esse o Estado Cívil a posto no seu B.I.
Acerca de um ano, já com o casal a viver separadamente, ML descobriu que RR, seu ainda marido e pai da filha, se preparava para levar a menina para a Colombia, tendo apanhado por mero acaso os respectivos bilhetes de avião.
A partír daí a sua vida mudou radicalmente, redobrando os cuidados de segurança e vigilância da filha, D, designadamente quanto ao colégio e às possíveis saídas deste. Não descansou enquanto não veio deixar a menina com os seus familiares em Portugal, recebendo destes o incentivo e o apoio incondicional para essa decisão tão drástica.
Quando deixou D em casa dos seus pais sabia que aquele era o primeiro dia de uma guerra que iria ter com RR, mas mesmo assim não hesitou.
Com o meu concelho, ML solicitou no tribunal da área da residência dos seus pais e agora também de D a guarda e custodia da filha, a qual também possui exclusivamente a nacionalidade portuguesa.
Devo esclarecer que D passou largas temporadas em Portugal para aqui ser assistida medicamente como membro integrante do agregado familiar do seu avô materno, beneficiário de um sistema autónomo de assistência médica (o dos bancários). RR não notificado para a conferencia de pais inicialmente agendada devido ao facto de não ter ido levantara carta registada que o tribunal português lhe remeteu para esse efeito. Todavia, depois de ter passado um mês de férias na Colombia e de não ter contactado ML durante mais de 3 meses RR resolveu apresentar uma queixa contra ML num tribunal inglês, acusando-a do rapto da filha e apresentando um chorrilho de mentiras para justificar a sua denúncia, a começar pela sua nacionalidade: para obter os favores do tribunal inglês RR afirmou ser cidadão britânico, quando na verdade era e é colombiano e só estava no Reino Unido graças ao facto de ser casado com uma cidadã comunitária.
Durante algum tempo ML contou com os serviços de uma firma de advogados de Londres, mas pouco a pouco foi chegando à conclusão de que os seus interesses não estavam a ser devidamente defendidos, não se justificando o pagamento das 375 libras por hora que lhe cobraram numa primeira factura de 10.000 libras.
O tribunal inglês não quis saber da decisão proferida pelo tribunal português, pretendendo aplicar ao caso a lei de Inglaterra e Gales, mas sempre tentando que ML assinasse uma declaração de renúncia a essa decisão e à jurisdição portuguesa ...
Por razões óbvias não posso descrever os pormenores do que foi o mês de Agosto de 2007 em termos de trabalho neste caso e da exigencia que o mesmo impôs de acompanhamento permanente, quer através do telefone, quer via correio electrónico ou fax e sempre em inglês, única lingua que os colegas de Londres entendiam.
Pouparei ao visitante/leitor a descrição dos pormenores seguintes, tanto no que se te passado em Inglaterra como em Portugal, onde entretanto ML apresentou uma queixa crime contra RR por ameaças e coacção grave, processo este em fase de investigação/inquérito.
Aquilo que me preocupa ao ponto de constituir neste momento um verdadeiro problema ético/moral é o facto de ML, minha cliente, estar a matar silenciosamente a figura parental de RR na vida de D.
O ódio conduziu ML a um beco sem saída, quando não ponderou as consequências da sua decisão a médio prazo. Se é verdade que RR queria levar D para a Colombia, retirando-a à mãe e com isso atingindo esta no seu ponto vital, também não é menos verdade que ML não quis nem tentou chamar RR para o terreno do diálogo civilizado entre duas pessoas com elevada formação académica, mas sinceramente com uma nota negativa nas disciplinas de Humanidade e Bom senso!
No fundo ML reagiu como John Wayne nos seus filmes: antes que o adversário disparasse ela sacou primeiro a arma e não hesitou em fazer com que RR mordesse o pó.
Agora tenho em mãos um caso de relação do poder paternal no qual a menor de que se trata é uma verdadeira orfã de pai vivo.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Prioridades...

Na passada terça-feira, 29 de Janeiro desloquei-me ao tribunal de Sintra a fim de participar na sessão de encerramento daquele que é até ao momento o maior processo alguma vez julgado em Portugal.
Nunca o ministério público conseguira submeter a julgamento um número tal elevado de arguidos, mais de 200a que se somam mais de 5 dezenas de pessoas colectivas, faltando naturalmente uma justificação cabal para tal decisão de juntar diversos inquéritos num gigantesco processo que um sr. Juíz Conselheiro considerou "infasível" em diálogo que terá mantido com a sra. Juíza de Instrução Criminal.
Nesta última sessão pretendeu o Colectivo do Tribunal da Moita(note-se que o julgamento decorreu sempre no Tribunal de Sintra por ser este o único que possuí uma sala capaz de permitir a presença simultânea de tanta gente) ouvir os arguidos, quer quanto à última declaração em sua defesa, quer quanto às suas condições sócio-económicas, assim se gastando um dia completo do trabalho.
A leitura do Acordão ficou agendada para o próximo dia 9 de Abril, ultrapassando assim o julgamento dois anos de duração.
Há muito tempo que a Comunicação Social perdeu o interesse em seguir o caso, havendo aqui e ali uma ou outra notícia consoante as incidencias das sessões, indicando-se a título de exemplo a seguinte:(http://jn.sapo.pt/2007/10/22/primeiro_plano/erros_contas_processo_alcool.html ).
Curiosamente, neste último dia a atenção dos muitos jornalistas presentes à porta do Tribunal não estava virada para o megaprocesso do alcoól, mas sim para o caso do duplo homicídio de Rio de Mouro cujo suspeito estaria a ser ouvido por um Juíz em primeiro interrogatório judicial para aplicação de medida de coacção.
Enquanto os participantes do megaprocesso iam saindo do tribunal sem serem abordados por qualquer jornalista, os ruidosos africanos que entravam e saiam do edifício numa roda viva eram sistematicamente interpelados pelos profissionais da comunicação social para dizerem de sua justiça.
Claro está que jornalisticamente, a prioridade está no clima de ghetto precedido na linha de Sintra, na violencia que afecta as populações da mesma e na lei do silêncio que se tenta impor para que não se fale no problema racial que ali existe e sistematicamente é ignorado.
Todavia o país devia ficar a saber quantos milhões de euros dos contribuintes foram gastos com um processo cujo desfecho será um chorrilho de absolvições depois de mais de 170 dias de julgamento ao longo de mais de 21 meses!