sábado, 24 de outubro de 2009

A casa dos livros e das recordações

A Saudade vagueia pela casa, sem pressa, com o passo lento de quem não se preocupa com o passar das horas.
Está diferente a casa depois das obras de remodelação, apresentando-se agora com outra disposição e com um ar rejuvenescido. Verifico com agrado que todas essas alterações não lhe retiraram o encanto natural que ela sempre teve aos meus olhos. Reconheço que as madeiras dos tectos e dos pavimentos por estarem apenas envernizadas conferem-lhe um charme que se conjugue bem com a sua localização privilegiada. Abro agora uma das janelas da sala e tenho diante de mim uma vista soberba que vai de Cacilhas até ao alto do Parque Eduardo VII, tendo pelo meio a ponte sobre o Tejo e todo o vale da Baixa Pombalina. Conheço bem cada um dos pontos que preenchem esta paisagem soberba onde o rio não só pára as margens, mas abre a porta para o grande oceano.
Os livros continuam nas estantes alinhados de acordo com o critério que o meu pai e eu encontrámos para os arrumar. Sinto uma indisfarçável emoção enquanto toco com as mãos aquelas lombadas familiares, é como se tivesse a reencontrar uns amigos que há algum tempo não apareciam. Tive a sorte de ter um pai que era um leitor compulsivo e que por ter esse vicio dos livros muito cedo começou a meter-me nas mãos todo o tipo de obras, porque para ele o importante era ler tudo o que pudéssemos. Todos os livros foram lidos por nós pelo menos uma vez, ou seja, não é possível encontrar um livro virgem naquela casa. Sorriu ao lembrar-me dos 300 livros que ganhei no programa “Acontece” do Carlos Pinto Coelho e para os quais fui obrigado a comprar duas estantes para o corredor da minha actual casa. Volto a lamentar que o meu pai já cá não estivesse para partilhar comigo o prazer de abrir todas aquelas caixas cheias de livros.
Abro a janela do meu quarto e vejo as muralhas do Castelo de S. Jorge e o seu arvoredo tão familiar. Reparo também na Sé e nos barcos que vão percorrendo o rio em todas as direcções. Creio que sobre o meu ombro pousou a mão de alguém que me habituei a encontrar cada vez que regresso à minha velha casa da Rua da Madalena.
Deixo que essa mão me toque e me passe o seu calor amigo. Naquele momento a Saudade e eu parámos por um breve instante de vaguear pela casa.