sábado, 29 de março de 2008

"Saiam da frente, deixem ber"

Já não há paciência para ouvir/ver notícias do episódio do telemóvel da aluna do 9ºC da escola Carolina Michaelis! Mais uma vez perdeu-se por completo a noção da proporcionalidade e da adequação que o direito de publicação deve possuir, transformando um episódio de indisciplina grave, num caso de criminalidade. O disparate chegou ao ponto de se classificar o caso como bulling...
Não fora a estupidez do rapaz em ter colocado no youtube a cena que filmara com o seu telemóvel e tudo ficaria dentro das quatro paredes daquela sala de aula, porque foi evidente a falta de categoria da professora para lidar com aquela situação.
Exigia-se à senhora mais e melhor, sem que precisasse de ser uma super professora para tratar o caso como se impunha ao nível do controle emocional. Em vez de adoptar uma postura infantil de “rabear” a aluna e de entrar no jogo desta da luta pelo telemóvel através de um estúpido braço-de-ferro, podia e devia a docente seguir o caminho da punição da aluna com uma falta disciplinar e a consequente retirada da sala, passando o caso para o/a colega Director/a de Turma ou ainda directamente para o Concelho Executivo mediante uma participação disciplinar, apresentada directamente ao mesmo.
A professora podia e devia ter saído da sala para pedir ajuda a um funcionário, mas optou por alimentar a situação diante de uma turma que assistia com risadas e comentários ao combate pelo telemóvel. Claro está que os alunos revelaram ali aquilo que são e também aquilo que os pais não lhes dão em casa. A professora foi tratada de velha, ninguém fez o que quer que fosse para pôr cobro à situação, agarrando a colega estérica na fase inicial do confronto. Não, nada disso. O que poucos (dois) fizeram foi puxar a colega com pouca convicção ao mesmo tempo que diziam “já chega”, isto após cerca de 1 minuto e meio de um triste espectáculo.
Passados quase 34 anos de degradação do sistema educativo é que o país acordou para a realidade de uma escola sem rei nem rock, onde a indisciplina e a má criação predominam, onde os professores não sabem como recuperar o seu papel, onde os alunos são o espelho da comunidade em que vivem.
Entretanto, a dona do telemóvel e o realizador do filme foram rapidamente transferidos de escola como se esta medida tivesse o condão de insuflar uma dose mínima de educação nos adolescentes em causa. Ao que parece, a aluna ora transferida compulsivamente da escola Carolina Michaelis já tinha anteriormente sofrido idêntica medida e também, por razões disciplinares.
O seu aproveitamento é miserável, pois reduz-se a um 3 a educação física e a um satisfaz em Área de projecto. Como a lei tutelar de menores, ou melhor dizendo como a aplicação prática da lei tutelar de menores é um verdadeiro desastre, permitiu-se que ela chegasse aos 16 anos nesta condição e com este desenvolvimento de personalidade!...
Agora, no recomeço das aulas, no 3º período vai por certo continuar a utilizar o seu querido telemóvel dentro das salas de aula da sua nova escola, porque combateu-se o efeito e deixou-se ilesa a causa.
Sobre os pais destes meninos malcriados nem uma palavra é proferida, são totalmente ilibados da história como se não tivessem qualquer responsabilidade na educação dos filhos, ou melhor, na falta de educação dos filhos. Têm de sobra o medo de dizer "não", contrariar ou de frustrar os filhos e nada fazem para melhorar a sua performance de educadores.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A Primeira Página

(talvez seja este o começo de um livro que há muito vive dentro da minha cabeça...)



Desde criança que gostava de fazer aquele trajecto quando a cidade se aprestava para a chegada da noite. Caminhava devagar, parando aqui e ali, observando as montras, apreciando cada pormenor do Chiado como se estivesse a comer um bife na Trindade ou no Nicola.

As ruas iam ficando desertas e a luz crepuscular dava agora lugar à plena escuridão onde sobressaíam os candeeiros da iluminação pública e a profusão de cores projectadas das montras.

Caía uma chuva miudinha mas nem mesmo isso o fez acelerar o passo. Limitou-se a levantar a gola do blusão e a meter as mãos nos bolsos, sentindo um indiscritível prazer com aquela situação de caminhar à chuva enquanto a cara ia ficando molhada pelas pequenas gotas de água.

Á medida que a chuva ia caindo espalhava-se pelo ar um agradável cheiro a fresco que só foi quebrado pela passagem de um taxi cujo escape rivalizava com a chaminé de qualquer refinaria.

Seguia para casa como se fosse um autómato, não tendo na sua cabeça qualquer ideia ou pensamento que o ocupasse.

Este estado de coisas só foi alterado quando atravessou a Rua dos Fanqueiros e concluiu que estava já bem perto de casa. Perguntou a si mesmo o que seria o jantar, deixando sem resposta essa súbita interrogação por forma a que a mãe o surpreendesse com um dos muitos pitéus com que gostava de o receber.

De repente ouviu uma voz familiar chamar pelo seu nome:
- Jorge, espera!
Voltou-se e deu de caras com a autora daquele pedido. Instintivamente, sorriu mal deu com os seus olhos nos dela.

- Olá Teresa como estás? - Foi o que lhe conseguiu dizer após o impacto da surpresa.
- Agora já estou com mais tempo livre, fiz hoje o último exame desta época. - E que tal? Tens algum palpite para a nota que vais ter? – Atirou-lhe ao mesmo tempo que perscrutava o seu olhar sem qualquer disfarce.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Para ti, pai

Foi com a tua morte que aprendi o verdadeiro significado de sempre e de nunca. Foi naquela manhã de 8 de Dezembro de 1993 que rapidamente adquiri a consciência de que nunca mais teríamos as nossas infindáveis conversas, que nunca mais trocaríamos livros, que nunca mais perderíamos noites juntos, que nunca mais te podia dizer "adoro-te pai". Foi naquela manhã de 8 de Dezembro de 1993 que rapidamente adquiri a consciência de que serias para sempre uma doce recordação, de que serias para sempre o meu melhor amigo, de que serias para sempre o homem mais espectacular que conheci em toda a minha vida.
Só a partir daquela fria manhã de Inverno é que adquiri o direito a ter nome próprio, deixando subitamente de ser o "filho do Rosário", pego nas fotografias e recuo no tempo ao preciso momento em que a vida ficou parada para sempre naquelas imagens impressas, umas ainda a preto e branco, outras já a cores. Lá estamos nós sorridentes na Praça dos Restauradores, eu com 6 anos e tu com 26, impecáveis nos nossos sobretudos.
Ainda ouço a tua voz a dizer-me "não era para parares, era para ficarmos a andar" e para sempre a fotografia guarda o que fomos: tu estás a caminhar e ao mesmo tempo estás um pouco inclinado para mim, parado e algo hirto, enquanto me chamas a atenção "não era para parares, era para ficarmos a andar", estamos de mãos dadas e o Pai Natal também ficou para sempre na nossa fotografia, sorrindo, talvez porque tivesse ouvido a tua frase. Estariamos na Quadra Natalícia, porque o Pai Natal ficava junto à grande loja de brinquedos nessa altura do ano.
Quem sabe se seria 8 de Dezembro. Naquele dia em que a fotografia nos fixou para sempre, tu caminhavas e eu estava parado.
Naquela manhã de 8 de Dezembro de 1993 tu ficaste parado e eu passei a caminhar sozinho.
Até sempre pai!

domingo, 16 de março de 2008

A propósito da onda de violência

Não é possível continuar a virar a cara para o outro lado, como se nada de anormal se passasse. Mais do que lutar contra a apatia de transeunte, é preciso lutar pela nossa sobrevivência. Sem falsos dramatismos, estamos a chegar à recta final onde tudo se vai decidir: só os mais capazes chegarão ilesos à meta!
Durante tempo demais foram-se acumulando tibiezas e equívocos no tratamento das desigualdades sociais que em “politiquêz” passaram a ser designadas por assimetrias sociais. Uma certa Esquerda Caviar foi sempre dando o seu contributo para o “coro dos coitadinhos”, enquanto a Direita há muitos anos que não tem uma voz que se faça ouvir.
Perante isto o Centrão (PS + PSD) vai jogando o jogo das cadeiras e os problemas ficam por resolver, mas com crescente agravamento.
A título de ilustração, veja-se a desgraça que tem sido o rendimento mínimo, enquanto contributo para que os subsidiados se acomodem e não procurem melhorar as suas condições de vida.
Permitiu-se que surgissem nas áreas metropolitanas das grandes cidades verdadeiros ghettos controlados por estruturas de cariz mafioso, onde a polícia não entra e o crime é rei e senhor.
Jovens organizam-se em bandos que diariamente invadem os principais centros comerciais das grandes cidades, dedicando-se a toda a espécie de crimes contra as pessoas e contra o património com uma impunidade verdadeiramente assombrosa. Há pouco tempo tive conhecimento directo do caso de um rapaz de 17 anos que foi apanhado quatro vezes a conduzir carros que furtara com outros e cuja única consequência foi estar a ser alvo de um processo cautelar para eventual aplicação de uma medida educativa correctiva sem qualquer efeito prático perante a proximidade da sua maior idade!
O caso da morte do jovem Diogo no parque de estacionamento do Oeiras Parque revela ainda outra coisa pior, qual seja a teimosia e o atavismo de certas instituições e entidades que não aprendem com os erros do passado. Passando a concretizar, há alguns anos no mesmo local deu-se um assalto a um segurança que transportava um saco com dinheiro. A PJ foi muito peremptória a afirmar que dispunha do vídeo das câmaras de vídeo vigilância, conseguindo deter dois suspeitos que foram acusados e levados a julgamento. Na última sessão, como derradeira prova a produzir, lá se pôs a cassete para que o Colectivo de Juízes e os restantes sujeitos processuais pudessem ver os dois arguidos em acção e aquilo que se viu foi chuva e mais chuva, acabando os dois homens que a PJ apontara com tanta certeza como autores do roubo por serem absolvidos!...
Pois é, temo que a história se repita e que não existam imagens do homícidio do malogrado Diogo, mas os senhores que gerem o Oeiras Parque afirmam com veemencia que o Centro não tem problemas de segurança - vê-se...temos de combater rapidamente a degradação social, a ociosidade, o insucesso escolar e tudo aquilo que vem transformando uma parte significativa da nossa juventude em bandos de delinquentes violentos que não atribuem qualquer valor à vida humana.
Já se sabe que não há soluções milagrosas, mas é preciso iniciar o tratamento da doença quanto antes, designadamente através da alteração legislativa das regras da liberdade condicional (impondo o cumprimento integral da pena de prisão aos condenados por crimes de sangue) e da aplicação sistemática de medidas de segurança de internamento fechado aos que forem considerados vadios, devendo incidir-se também nas medidas concretas de controle dos estrangeiros.

sábado, 15 de março de 2008

A musica da semana

Todos temos as canções das nossas vidas, aquelas que, alem da letra e da música carregam em si as memórias de um momento ou de um rosto.
Pertenço ao grupo daqueles que dividem/ classificam a música em dois tipos – a boa e a má música. Sempre ouvi de tudo e em grandes doses.
Queiram fazer o favor de “clicar” no play abaixo e ouçam com a merecida atenção Michel Polnareff e a sua Lettre a la france, canção escrita quando o artista se encontrava exilado nos EUA por razões da sua vida pessoal.



Child In Time - Deep Purple

quarta-feira, 12 de março de 2008

Esperança e Inveja

(Crónica publicada no jornal LusoPressNews na sua edição de Abril de 2006)

Esperança e inveja

Nós, Portugueses, somos tidos como um povo de brandos costumes, de vícios privados e publicas virtudes.

Apesar do que dizem os últimos documentos da própria Igreja continuamos a afirmar-nos católicos e muito praticantes, não obstante os templos estarem cada vez mais vazios de crentes.

Há, no entanto, algo em que todos os analistas e comentadores estão e acordo o país está em crise e não se vê como possa sair dela tão depressa.

Tenho para mim que a nossa crise é congénita nasceu connosco quando o bom do D. Afonso Henriques não hesitou em bater na mãe para fundar um novo reino.

Paralelamente a este estado de crise permanente, encontramos ao longo da nossa história como material de suporte á nossa condição dois conceitos que são omnipresentes.

Um deles é uma virtude teologal e é a esperança. O outro, pelo contrário, faz parte do elenco dos pecados capitais e é a inveja.

Somos assim um povo cheio de esperança no futuro, nos dias melhores que virão adiante mas também ruídos pela inveja de ver os outros povos passarem-nos à frente em todos os parâmetros sociais.

Foi com esperança que abraçamos projectos colectivos como os Descobrimentos e é com essa mesma esperança que aguardamos a chegada de um qualquer D. Sebastião que nos indique o caminho para a felicidade colectiva.

Já se passaram 32 anos sobre a queda do Estado Novo e os resultados estão á vista: temos muitos direitos, muitas liberdades e outras tantas garantias que o nosso lugar é lá bem na ponta da cauda do ranking europeu!

Perante isto, na hora do desencanto, somos assaltados pela inveja que se sentimos quando testemunhamos que todos os outros têm melhor vida do que nós, ganham muito mais e vêm o dinheiro dos impostos que pagam ser investido em proveito comum.

Camões, além de exaltar os feitos heróicos lusitanos, não encontrou no seu riquíssimo vocabulário outra palavra para fechar “Os Lusíadas” que não fosse inveja e ninguém duvidará que ele sabia muito bem do que falava.

sábado, 8 de março de 2008

Convoco os poetas

Confesso que sou avesso a efemérides e, por isso, convoco dois dos meus poetas preferidos para me substituirem na homenagem que quero prestar à mulher.
Então, deixo-vos um pouco de Eugénio de Andrade e de Vinicius de Morais porque há sentimentos que só os poetas conseguem transmitir:

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Eugénio de Andrade

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Morais

sexta-feira, 7 de março de 2008

O Senhor Manda-Em-Tudo

No princípio, em 1980 foi a cruz vermelha portuguesa (CVP) e um curso de monitores de socorrismo que o habilitou a ministrar cursos de primeiros socorros em diversas entidades, designadamente em corporações de bombeiros.
A sua faceta autoritária foi logo exibida na delegação da Amadora da CVP, quando ali comandou a unidade de socorro com a patente de tenente.
Tratou-se de um comando bastante agitado, sempre envolto em polémica e conflitos com tudo e com todos. Depois veio o percurso político propriamente dito, semelhante ao de tantos outros que nestes últimos 34 anos têm feito carreira nos altos cargos da nossa Administração Pública.
Começou por ser o Presidente do Serviço Nacional de Bombeiros (SNV), o que até se percebe em função do seu passado na CVP. Porém, a sua presidência esteve sempre associada a disputas e guerras que perduram até aos nossos dias, não conseguindo apaziguar as hostes dos soldados da paz.
Anos mais tarde ei-lo à frente da direcção-geral de viação (DGV), ocupando o cargo de director-geral, o que já custa um pouco a entender porque raio é que foi lá parar além da litância partidária...
Como se sabe a DGV esteve sempre no meio de grandes confusões e polémicas, sendo por isso que, o actual governo tomou a decisão de acabar com aquela casa que não tinha conserto possível...
Com a criação da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) o PS logo o designou Presidente dessa nova entidade, como se isto fosse a coisa mais natural e mais óbvia do mundo.
O Senhor Director-Geral de Viação, o homem que decidia sobre os períodos de enibição de condução, sobre a abertura de Escolas de Condução e coisas do género, passou da noite para o dia a ser o responsável máximo por uma espécie de polícia que até teve direito a treino militar e tudo...
O Senhor Manda-Em-Tudo só começou a ficar mal na fotografia na passagem do ano quando foi apanhado a fumar uma cigarrilha no Casino Estoril e deu aquela resposta que todo o país ouviu incrédulo. A vida do homem parece que começou a complicar-se a partír desse momento fatídico em que o fotografo estava lá...
A ida do Senhor Manda-Em-Tudo à Assembleia da República foi algo penosa de ver, tamanha a dificuldade que o homem sentiu/sentia em explicar o inexplicável.
Agora começam a surgir sinais de que uma vaga de fundo se está a formar contra as patetices, as prepotências e o autoritarismo da ASAE e do seu Presidente.
Finalmente, porque já ontem era tarde!
Todavia dou comigo a pensar qual será a próxima paragem do Senhor Nunes. Se calhar a Direcção-Geral das Pescas ou então a Direcção-Geral de Turismo...enfim na rua é que o senhor Nunes não vai ficar porque o PS não deixa!!!

sábado, 1 de março de 2008

Os estilhaços do apito

O mediático processo do apito dourado foi desencadeado pelos serviços do Ministério Público da Comarca de Gondomar e por lá decorreu a investigação apesar de muito cedo se saber que uma parte significativa dos factos criminalmente censuraveis teria sido comitida noutros locais, sobretudo em Lisboa.
É por isso que me causa estranheza a atitude da hierarquia do Ministério Público de manter em Gondomar um inquérito tão complexo e tão exigente de meios, quando tudo aconselhava que o processo fosse distribuído ao Departamente Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), o qual foi criado em 1999, precisamente para dirigir investigações de certa magnitude com focos disseminados pelo território nacional.
Apenas quando o chamado processo principal se desmembrou em dezenas de outros inquéritos que vieram a ser remetidos para as Comarcas territorialmente competentes é que o Sr. Procurador Geral da República tomou a iniciativa de nomear uma equipa para trabalhar esses estilhaços em regime intensivo.
Esta é uma realidade que vos relato com objectividade, sendo que os factos são do domínio público e quem quiser poderá fazer uma pequena busca na internet com o intuito de desenvolver a informação em causa.
Todavia a minha estranheza não se fica por aqui, uma vez que este caso tem ocupado tanto espaço noticioso e a ignorância evidenciada pela maior parte daqueles que o comentam tem tendencia a aumentar...
O tema principal do caso, incluindo naturalmente os seus estilhaços é a corrupção na arbitragem. Estão em causa diversas vertentes como sejam a nomeação de árbitros, a actuação destes, a sua avaliaçao pelos observadores técnicos, as classificações finais do desempenho dos árbitros e tudo isto em várias épocas desportivas.
Curioso é que todos os árbitros abrangidos pela investigação continuaram e continuam a arbitrar como se nada se tivesse passado...
As decisões arbitrais "esquisitas" continuam a danificar a verdade desportiva, jornada após jornada...
É claro que cirurgicamente foram escolhidos na investigação uma série de jogos sem qualquer relevo competitivo ou então sem as tais decisões arbitrais esquisitas, para que o povinho acredite que tudo está a mexer e a mudar.
Eu, quanto a mim, acho que tudo isto não passa de mexer para tudo ficar na mesma. E mais não digo porque o meu cliente neste caso já foi elibado e o segredo profissional impede-me de continuar...