Olho para a varanda e de repente vejo-te debruçada nela a atirares-me as chaves dentro de um saco todo dobrado. Sim, és tu quem me sorri e me acena, fugindo rapidamente para dentro de casa. Apanho o saco. Desdobro-o enquanto caminho, mas volto a parar para ler o que escreveste num pedaço de papel. Além do porta-chaves tinhas também colocado no saco todo dobrado um pedaço de papel onde escreveste com a tua inconfundível caligrafia redonda "não venhas antes das 23h. Sobe apenas quando a luz do meu quarto estiver acesa. Adoro-te". Olho de novo para a varanda e ela está fechada, porque a casa está em obras e encontra-se desabitada há vários meses, continuo a subir a rua em direcção ao largo e às memórias de um tempo que vivemos sofregamente como dois adolescentes que éramos. Resolvi atravessar a rua para me sentar num poial quase fronteiro à varanda e ali permaneci a olhar fixamente para ela, enquanto o pensamento recuava algumas décadas atrás.
De repente, é como se estivesse a passar um filme no qual fomos protagonistas, argumentistas e realizadores, mas que eu agora unilateralmente acabo de repôr em exibição no ecrã da minha memória. Devido a essa acumulação de funções consigo até recordar-me do teu perfume "variations" de Carven. Relembro ainda a banda sonora, invariavelmente composta por dois ou três a LP's/albuns que enfiava debaixo do braço e levava comigo. No filme estávamos tão próximos como hoje estamos distantes. A poeira dos dias foi-se acumulando sobre as nossas vidas, colocando entre nós uma espécie de tempestade de areia no nosso deserto de emoções.
Oxalá tenhas na tua memória um espaço onde tenhas guardado o nosso filme. Bem, vou-me deixar de nostalgias piegas, pois ainda tenho um pedaço de rua para subir até ao largo.