quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A insustentável leveza das testemunhas

Tenho amanhã as alegações num julgamento em que patrocino um electricista que segundo a pronúncia e a acusação particular foi agredido e injuriado por um médico de nacionalidade chinesa, traduzindo-se a agressão numa luxação do braço direito com ao nivel da articulação úmero/ombro, apresentando-se o clínico nas suas próprias palavras traduzidas por intérprete como um especialista em ossos.
A cena desenrolou-se no interior de uma moradia na qual o meu cliente executava uma empreitada da sua especialidade e onde foi procurado pelo médico que quis pessoalmente transmitir-lhe que o considerava despedido da subempreitada que estava a executar na sua residência. Não há/houve testemunhas oculares do incidente, tendo apenas um pintor que se encontrava no interior da moradia, ouvido algum burburinho, tendo visto quando chegou ao pé dos dois homens que o bom do electricista tinha o braço inutilizado/inerte e gritava com dores.
A versão do médico é algo fantasiosa, porque diz que limitou a desviar-se quando o outro tentava agarrá-lo para o pôr dali para fora.
Segundo ele, nessa altura o electricista terá caído na escada (local onde ambos se encontravam) e daí a lesão traumática sofrida.
De acordo com o meu cliente, quando pretendeu agarrar o médico, este num ápice desferiu um único golpe sobre a articulação do ombro com tal precisão que ficou logo com o braço perfeitamente "morto".
Enquanto o arguido nega a prática dos crimes o electricista defende a sua versão com a coerência própria de quem tem a verdade por parceira.
Por fim, procurou o prestigiado médico chinês demonstrar através do seu role de testemunhas que não faz mal a uma mosca, quanto mais a uma pessoa.
Devo confessar-vos que em 25 anos (é verdade, completados no passado dia 13 do currente!) de profissão nunca tinha visto uma coisa assim: um general médico da força aérea, um professor da universidade de Veneza, um professor do ISCTE, um engenheiro civil denomeada e um Juiz Conselheiro jubilado depuseram em abono das virtudes de carácter do Dr. W perante o silêncio dos presentes.
Ora, tão ilustres personalidades podem ter um enorme peso na nossa sociedade por obra e graça dos seus méritos e do prestígio que souberam granjear ao longo da vida, mas não podem felizmente branquear um comportamento merecedor de censura jurídico-penal!
Nas minhas alegações irei naturalmente dizer isto, exemplificando com alguns casos bem conhecidos como a amizade de Robert de Niro com o padrinho John Gotti ou a de Frank Sinatra com Sam Giancana e Lucky Luciano: a amizade dos dois artistas com os três mafiosos durou toda a vida, porque foram criados no mesmo bairro de Nova Iorque e os caminhos da vida não cortaram o seu relacionamento, mas isso não transformou os criminosos em pessoas respeitáveis!

A pontuação da Vida

Somos virgulas quando nos diluímos na multidão anónima sem nos destacarmos do grupo.
Virgulas que separam os vários sujeitos e não querem ser mais do que isso. Apenas um pequeno sinal na paisagem quotidiana.
Depois, um pouco mais adiante somos não apenas virgulas, mas pontos e virgulas, porque já somos destacados por entre os transeuntes que se atropelam nos caminhos da vida. Temos, pois, a força necessária para sermos distinguidos no meio dos rostos que seguem connosco.
De repente, damos conta que é preciso furar a corrente, cortar as amarras que nos obrigam a estar dentro da mesma frase e a sofrer a preputencia da oração dominante.
Então, somos o ponto final, espécie de lâmina que nos liberta e nos leva à conquista da desejada liberdade, porque a seguir se abre um caminho só nosso onde podemos escrever aquilo que quisermos.
Porém, a liberdade coloca-nos dúvidas, interroga-nos a cada passo e, por isso, somos forçados a ser pontos de interrogação, inquiridores da realidade que procuramos mudar em nome de um sonho.
Continuamos a nossa estrada absorvidos nos nossos pensamentos, fazendo jus à nossa condição de seres racionais. Caminhando e pensando até que alguém reconhece o nosso mérito e resolve colocar um ponto de exclamação à nossa frente como sinal de surpresa, de espanto, por tudo quanto pensámos.
Esforçámo-nos por nunca ser as reticências que são próprias dos fracos e dos hesitantes, razão pela qual nunca tropeçámos nelas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

E desta lembram-se?

Em 1972 os Jethro Tull lançaram o albúm Living in the Past, no qual sobressaía a flauta mágica do genial Iane Anderson, como instrumento central do som da banda.
A preocupação com os poemas que musicavam/musicam é um traço característico destes rockers que procuraram sempre contar-nos belas histórias de temática invulgar.
O líder do projecto, o louco homem da flauta é de há muitos anos a esta parte o principal produtor de salmão do Reino Unido, mas a banda continua a dar concertos, porque o vício da música é algo de imprescindível para estes sexagenários.
Na altura andava eu no Liceu Gil Vicente e só dois maduros andavam com os discos dos Jethro Tull debaixo do braço, eu e o meu amigo (hoje meu primo) Jorge, porque este som ainda hoje não é vulgar!
Fiquem com Living in the Past e sejam felizes!

domingo, 12 de outubro de 2008

A crise do sistema ou a falência do regime?

Diz o povo do alto da sua sabedoria que com o mal dos outros podemos nós bem e será essa atitude aparentemente egoísta que devemos adoptar nos tempos conturbados que vamos vivendo.
A crise é demasiado profunda para ser apenas uma crise do sistema económico. Por mais que queiram fugir à realidade aqueles que ocupam o Poder sabem muito bem que a crise feriu de morte o próprio regime político-constitucional vigente!
Não consigo perceber - e o defeito será meu - porque razão se tem falado tanto em injectar milhares e milhares de milhões de euros no sistema financeiro e ninguém fala ou sequer avança uma ténue preocupação no sentido de substituir todos os pilantras que rebentaram com tudo isto.
O cúmulo foi o episódio dos administradores da seguradora AIG, que depois da Reserva Federal salvar a companhia, foram gozar férias para a Califórnia e depois apresentaram a factura de 400.000 dólares à empresa que tinham atirado para a falência.
Nunca fui adepto da nossa Constituição de 1976, nem mesmo depois das várias revisões que foi tendo ao longo dos anos e, por isso, não tive/tenho de mudar de opinião para dizer agora aquilo que vou dizer.
Defendo que o regime devia ser presidencialista, cabendo ao PR apresentar ao eleitorado um programa de Governo que seria a base da escolha dos eleitores.
Em vez do Conselho de Estado que não serve para nada devíamos ter um Senado no qual todos os antigos PR teriam lugar vitalício e os restantes lugares ocupados por cidadãos com mais de 50 anos e que concorreriam por circulos uninominais. Devia também haver uma câmara baixa com cerca de 100 representantes eleitos igualmente por circulos uninominais.
O Governo seria aprovado pelo Senado, sendo como disse o PR o Chefe do Governo. O processo Legislativo da Câmara Baixa teria que ser sempre rectificado pela Câmara Alta/Senado. Cada representante de uma e de outra câmara responderiam perante os eleitores do respectivo circulo eleitoral como qualquer mandatário está obrigado a prestar contas ao seu mandante.
Em vez de uma constituição programática seria melhor que o país tivesse uma constituição emblemática que contivesse o acervo dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, ou seja, uma verdadeira Magna Carta.
Certamente que o PR escolheria os melhores para o Governo, sem estar sujeito aos jogos de bastidores e ao clientelismo nojento das Sedes Partidárias.
No fundo o PR seria uma espécie de Seleccionador Nacional que a cada momento atribuiria responsabilidades governativas a quem se destacasse pelo seu mérito numa determinada área/matéria. Seria o fim dos especialistas em Ideias Gerais, forma eufemistica de lhes chamar especialistas em coisa nenhuma!
A título de exemplo, embora com muitas e importantes diferenças face ao modelo que advogo, vejam-se os governos de iniciativa presidencial do General Ramalho Eanes, que ao nomear Alfredo Nobre da Costa e Maria de Lurdes Pintassilgo para Chefes do Governo acabou por fazer a demonstração da bondade do Regime Presidencialista puro e duro.
Presentemente são visiveis os sinais de fricção entre o PR e o PM, porque embora parecidos são diferentes e o mérito de Cavaco Silva como Economista daria agora um certo jeito...
Por muito menos do que isto o outro senhor foi-se embora exclamando que estavas no pantano. Será que um dia destes vou ouvir o meu vizinho da rua Braancamp exclamar "estamos na merda!"??

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

À memória de Paul Leonard Newman (26-01-1925/26-09-2008)

Os nossos ídolos também são mortais e não escapam a deixar-nos sem o brilho da sua presença. Para a eternidade fica-nos sempre o seu talento, a sua genialidade e muitas vezes o seu exemplo de vida. Está neste caso Paul Newman que além tudo o que fez no cinema (actor, realizador, produtor, guionista), também nos deu um belo exemplo de vida dedicada ao próximo, sobretudo aos mais necessitados.
Ele não foi apenas a grande estrela dos mais bonitos olhos azuis do cinema, foi igualmente o filantropo das grandes causas.
Quero recordá-lo num magnífico papel de um advogado decadente, alcoólico e quase vencido pela vida que recupera a sua dignidade perdida num caso com poucas probabilidades de exito. Vejam o excerto de o Veredicto, estreado em 1982 clicando num link abaixo, sff:

sábado, 4 de outubro de 2008

O Portugal dos Pequeninos

À força de tantas e tantas repetições, de sermos constantemente bombardeados com noticias de escandalos estamos anestesiados e sem qualquer capacidade de reacção a tudo aquilo que vai sucedendo de corrupção, de nepotismo, de favorecimento pessoal e outros fenómenos que vão crescendo como crescem os cogumelos nos bosques.
No fundo estamos agora cientes de que uma clique se tem governado à nossa custa, estabelecendo para tanto uma rede de interesses com vista a alcançar não só a sua perpetuação no aparelho do poder como também a sua impunidade.
Vejamos o caso da vereadora da habitação da CNL que publicamente apregoa a ética na política ao lado de Manuel Alegre, mas que em privado tratou bem a sua vidinha ao arranjar uma casa na Rua do Salitre, ao lado da Avenida da Liberdade, por 150 euros mensais. Apesar de ter sido descoberta, a Vereadora continua em funções, porque os seus pares devem achar que o caso é perfeitamente normal, não constando também que o Ministério Público se tivesse incomodado em meter o nariz na vida da Vereadora Ana Sara Brito.
Nesta história das casas do vasto património do Município de Lisboa, estamos agora a receber os resultados das várias provas dos 9 aos rumores e boatos que circulavam/circulam há muitos anos pelas ruas da capital, ficando agora seguros de que muitos figurões estão a mamar na teta da vaquinha que os amigos do poder lhes facultam a troco de pequenos favores de toda a espécie.
É um fartar vilanage, é encher os bolsos enquanto o país está a saque.
Antigamente as populações sabiam que os piratas podiam atacar o mar ou então que de quando em vez faziam o corso nas povoações costeiras sabiam sempre quando as temidas embarcações corsárias vinham fazer das suas.
Agora neste Portugal dos pequeninos os piratas andam pelas ruas sempre prontos para a abordagem das vítimas, podendo mesmo muitos deles ocuparem cargos relevantes no aparelho do Estado.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O Som do Silêncio

Podem os meus estimados e muito pacientes leitores ficar descansados que nada aconteceu ao blog ou a este vosso modesto e humilde contador de histórias.
Remeti-me ao silêncio, porque nestes tempos dificeis as palavras perdem muitas vezes a sua força e é então que, o silêncio conquista plenamente o seu lugar enquanto forma significativa de comunicar com os outros.
Se desatasse a comentar tudo aquilo que está a acontecer à minha volta não fazia mais nada do que escrever/editar posts no blog, tal é a quantidade de coisas que podem ser analisadas!
Há algum tempo prometi que não voltaria a escrever sobre a situação actual do país e francamente não sinto vontade de fazer como os políticos da nossa praça, ou seja, não tenciono quebrar essa promessa. A menos que os meus queridos leitores me manifestassem através dos seus comentarios que devia voltar a tecer algumas considerações sobre a política nacional, o que naturalmente não me cabe decidir/condicionar: o blog poderá retomar essa linha editorial paralelamente com as outras que sempre teve se fôr essa a vossa vontade.
Tenho sido um espectador atento do que se vai passando no país e no mundo e tenho preferido a reflexão íntima, a meditação sobre os vários temas em vez de logo expor as minhas ideias de uma forma algo impulsiva, talvez mesmo demasiado emotiva, depois estou também com um problema informático que espero ver resolvido muito em breve, estando a utilizar o portátil em vez do habitual desktop caseiro, porque só sou capaz de mexer no blog quando estou em casa calmo e tranquilo.
Já que esperaram uns dias, peço-vos que esperem até ao próximo fim-de-semana que então aqui voltarei como dantes.