João Melo Ferreira era advogado e foi cobardemente assassinado no seu escritório na passada segunda-feira, 28 de Outubro. A notícia começou, como tantas vezes acontece, por ser incorrecta já que se dizia que o advogado tinha sido atingido com um tiro na cabeça por um cliente à porta do tribunal. Os comentários a esta notícia imperfeita alinharam quase todos por uma inexplicável compreensão pela atitude do cliente, sendo este desculpabilizado com o argumento de que por vezes os advogados fazem perder a cabeça a uma pessoa. Afinal as coisas não se passaram como essa primeira notícia avançou: João Melo Ferreira tinha escritório perto do tribunal de Estarreja e convocara o marido de uma cliente para uma reunião preparatória do processo de divórcio que aceitara patrocinar. Convidou para ir ao seu escritório a parte contrária, por certo com o propósito de encontrar a melhor solução para o caso, sem que o processo se arrastasse em juízo. É uma situação banal este tipo de convocatórias para uma reunião ou conversa informal no nosso escritório, havendo por vezes a recusa da outra parte em comparecer. É também vulgar que a parte se faça acompanhar ou representar por um colega.
Naquele final de manhã a parte contrária deslocou-se ao escritório do malogrado Melo Ferreira acompanhada de uma pistola e desvairada pelo ódio para com aquele que procurava defender os interesses da sua cliente à luz do bom senso e do equilíbrio que a idade (53 anos) e a longa experiência profissional lhe davam. O pensamento daquele advogado foi considerado pelo assassino como perigoso e, por isso, a solução encontrada foi atingi-lo a tiro na cabeça.
Quem faz do combate de ideias e do antagonismo das opiniões modo de vida não está preparado para lidar com uma corja crescente de indivíduos que não respeitam o próximo e partem para a violência por ''dá cá aquela palha''.
Tombou um homem que de uma forma educada, civilizada e correcta procurou o diálogo, procurou a discussão das ideias e encontrou do outro lado da mesa a Morte disfarçada de marido de uma cliente.
Há muitos anos, Adelino da Palma Carlos disse que ''ser advogado é tocar às estrelas'', hoje em 2009 eu digo que ser advogado é estar sempre preparado para um duelo e ser capaz de disparar primeiro sobre o antagonista.
3 comentários:
POis mais uma incorrecção. O João não convidou e nunca convidaria, pois a parte contrária deve ter advogado que o representa junto ao colega e é isso que me faz espécie, o João nunca o fez e não claudicaria. O que se terá passado nunca o saberemos
Cabe à parte contrária passar a convocatória ao seu mandatário que então se apresentará como tal ao colega. É evidente que parti da minha própria experiência de 26 anos de profissão para tentar construir um modelo que explique aquilo que para mim não tem explicação nem volta a dar-lhe...
bom natal
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