Naquele tempo Lisboa era uma cidade repleta de cafés com mesas de tampo de mármore e empregados solícitos a atender a clientela.
O “Café Bom” na rua dos Condes de Monsanto, entre a Praça da Figueira e o Poço do Borratém era um desses estabelecimentos onde se matavam as horas entre bicas saborosas e conversas sem fim cuja clientela era uma verdadeira galeria de tipos sociais.
Ali podíamos encontrar tanto o escritor Romeu Correia, autor de “Gandaia” e o “Céu da Minha Terra” entre tantas outras obras imperdíveis, numa mesa junto à grande janela embrenhado na sua escrita entrecortada com uns goles de Brandi, como o Luís Ramos, velho contrabandista de relógios e pequenas jóias de adorno.
Também por lá andava o Rubi, carteirista de meia-idade, sempre impecavelmente vestido de fato completo, cabelo penteado com brilhantina e na botoeira da lapela um refulgente emblema do Benfica em ouro e brilhantes.
Naquele dia Rubi aguardava que o movimento de passageiros nos eléctricos aumentasse o suficiente para justificar a sua saída para a rua. Observava com aparente indiferença os eléctricos que iam desfilando diante de si e de repente comunicou aos presentes que estava na hora de ir trabalhar - já venho, ficam aqui os jornais. Vou picar o próximo que passar.
Queria com isto dizer que saltaria para o próximo eléctrico que se aproximasse para curvar para o Poço do Borratém. Sim, os eléctricos tinham então na sua maioria meias-portas de lagarto recolhidas para permitir a entrada e a saída dos passageiros em qualquer ponto do trajecto.
Mal ele saiu, peguei no Diário de Notícias e, comecei a ler os títulos para o Sr. Vergílio reformado da Marinha e analfabeto daqueles que só sabiam assinar o nome.
Não teriam passado mais de cinco minutos quando o Rubi regressou e mesmo antes de voltar a sentar-se exclamou para o empregado: Ó Ângelo traz-me um café e um bagaço depressa, antes que eu desate para aqui a chorar.
A coisa prometia. O que é que se teria passado para ele ficar naquele estado? – não foi preciso perguntar-lhe porque o desabafo foi imediato:
- Vocês querem lá ver o que me aconteceu. Mal entrei no eléctrico vi uma mulher com uma mala preta que me deu uma grande fezada. Não tive trabalho nenhum para lhe servir o cabedal (tirar a carteira) e, assim que o filei (agarrei) vi que estava gordo. Não resisti e dei uma espreitadela para ver a guita (dinheiro) que tinha. Vocês não acreditam, mas aquilo eram só receitas e papéis do hospital. A mulher não tinha uma nota e eu olhei para ela como se alguma coisa me obrigasse a fazê-lo. Ela tinha mesmo aspecto de quem está muito doente e ainda por cima tinha um ar tão triste que sei lá. Olhem, tirei dois pintores (igual a 200 escudos) do bolso e meti-lhos na carteira. Depois, tornei a pôr-lhe a carteirita dentro da mala e disse-lhe antes de lhe tirar que ela tinha a mala aberta.
O relato deixou-nos espantados e comovidos com aquele gesto de amor pelo próximo.
Antes que pudéssemos dizer o que quer que fosse, ainda ouvimos o Rubi rematar: se calhar 200 escudos não chegam para aviar as receitas. Devia ter deixado mais qualquer coisa, vocês não acham?
A partir daquele dia o Rubi passou a ter a minha admiração de jovem adolescente e a minha sincera preocupação de que nada de mal lhe sucedesse. É que às vezes o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo também é escrito por pecadores e eu tive naquele dia oportunidade de assistir à Parábola do Carteirista que cumpria o mandamento “ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Nota: No início dos anos 70 do século passado, um café custava 1 escudo e 50 centavos, pelo que 200 escudos doados pelo Rubi permitiam comprar 133 bicas. Transpondo para a actualidade, quem quiser consumir 133 cafés/bicas terá que desembolsar cerca de 66,5 euros, tomando por base o preço unitário de 50 cêntimos.
Para outra tomada de compreensão do gesto em apreço, relembrarei que 1 bilhete de eléctrico custava 1 escudo, uma posta de bacalhau custava 1 escudo e 50 centavos e um conjunto posta + rabo 2 escudos e 50 centavos.
Por tudo isto podemos ter a certeza de que os 200 escudos fizeram muito jeito à pobre senhora.
O “Café Bom” na rua dos Condes de Monsanto, entre a Praça da Figueira e o Poço do Borratém era um desses estabelecimentos onde se matavam as horas entre bicas saborosas e conversas sem fim cuja clientela era uma verdadeira galeria de tipos sociais.
Ali podíamos encontrar tanto o escritor Romeu Correia, autor de “Gandaia” e o “Céu da Minha Terra” entre tantas outras obras imperdíveis, numa mesa junto à grande janela embrenhado na sua escrita entrecortada com uns goles de Brandi, como o Luís Ramos, velho contrabandista de relógios e pequenas jóias de adorno.
Também por lá andava o Rubi, carteirista de meia-idade, sempre impecavelmente vestido de fato completo, cabelo penteado com brilhantina e na botoeira da lapela um refulgente emblema do Benfica em ouro e brilhantes.
Naquele dia Rubi aguardava que o movimento de passageiros nos eléctricos aumentasse o suficiente para justificar a sua saída para a rua. Observava com aparente indiferença os eléctricos que iam desfilando diante de si e de repente comunicou aos presentes que estava na hora de ir trabalhar - já venho, ficam aqui os jornais. Vou picar o próximo que passar.
Queria com isto dizer que saltaria para o próximo eléctrico que se aproximasse para curvar para o Poço do Borratém. Sim, os eléctricos tinham então na sua maioria meias-portas de lagarto recolhidas para permitir a entrada e a saída dos passageiros em qualquer ponto do trajecto.
Mal ele saiu, peguei no Diário de Notícias e, comecei a ler os títulos para o Sr. Vergílio reformado da Marinha e analfabeto daqueles que só sabiam assinar o nome.
Não teriam passado mais de cinco minutos quando o Rubi regressou e mesmo antes de voltar a sentar-se exclamou para o empregado: Ó Ângelo traz-me um café e um bagaço depressa, antes que eu desate para aqui a chorar.
A coisa prometia. O que é que se teria passado para ele ficar naquele estado? – não foi preciso perguntar-lhe porque o desabafo foi imediato:
- Vocês querem lá ver o que me aconteceu. Mal entrei no eléctrico vi uma mulher com uma mala preta que me deu uma grande fezada. Não tive trabalho nenhum para lhe servir o cabedal (tirar a carteira) e, assim que o filei (agarrei) vi que estava gordo. Não resisti e dei uma espreitadela para ver a guita (dinheiro) que tinha. Vocês não acreditam, mas aquilo eram só receitas e papéis do hospital. A mulher não tinha uma nota e eu olhei para ela como se alguma coisa me obrigasse a fazê-lo. Ela tinha mesmo aspecto de quem está muito doente e ainda por cima tinha um ar tão triste que sei lá. Olhem, tirei dois pintores (igual a 200 escudos) do bolso e meti-lhos na carteira. Depois, tornei a pôr-lhe a carteirita dentro da mala e disse-lhe antes de lhe tirar que ela tinha a mala aberta.
O relato deixou-nos espantados e comovidos com aquele gesto de amor pelo próximo.
Antes que pudéssemos dizer o que quer que fosse, ainda ouvimos o Rubi rematar: se calhar 200 escudos não chegam para aviar as receitas. Devia ter deixado mais qualquer coisa, vocês não acham?
A partir daquele dia o Rubi passou a ter a minha admiração de jovem adolescente e a minha sincera preocupação de que nada de mal lhe sucedesse. É que às vezes o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo também é escrito por pecadores e eu tive naquele dia oportunidade de assistir à Parábola do Carteirista que cumpria o mandamento “ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Nota: No início dos anos 70 do século passado, um café custava 1 escudo e 50 centavos, pelo que 200 escudos doados pelo Rubi permitiam comprar 133 bicas. Transpondo para a actualidade, quem quiser consumir 133 cafés/bicas terá que desembolsar cerca de 66,5 euros, tomando por base o preço unitário de 50 cêntimos.
Para outra tomada de compreensão do gesto em apreço, relembrarei que 1 bilhete de eléctrico custava 1 escudo, uma posta de bacalhau custava 1 escudo e 50 centavos e um conjunto posta + rabo 2 escudos e 50 centavos.
Por tudo isto podemos ter a certeza de que os 200 escudos fizeram muito jeito à pobre senhora.
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