segunda-feira, 21 de abril de 2008

Em Defesa de um Colega

Embora já nos tenhamos cruzado nas nossas andanças profissionais ao coincidirmos em deligências agendadas para o mesmo tribunal e à mesma hora, a verdade é que não conheço o meu colega Dr. João Grade para ter uma opinião sobre a sua personalidade.
Todavia, para aquilo que hoje me leva a escrever estas linhas não é relevante o conhecimento pessoal, porque é suficiente a experiência profissional.
O Dr. João Grade foi constituído arguido após terem sido encontrados uns comprimidos de anfetaminas e de ecstasy dentro de um estojo de óculos no interior de um saco com objectos pessoais pertencentes a uma cliente detida no estabelecimento prisional de Odemira. De facto, é preciso salientar que o Dr. João Grade não tentou entrar com as substancias proibidas por forma a passá-las à cliente. De acordo com todas as noticias disponíveis sobre este caso ele fez o que qualquer visitante é obrigado a cumprir quando deseja entregar algo a um detido/recluso, deixando na portaria aquilo que será entregue ao destinatário depois de passar por uma revista a cargo dos guardas prisionais. É preciso que se saiba que o Dr. João Grade podia ter posto compridos nos bolsos ou na sua pasta e por certo não seria detectado, porque a única preocupação com a entrada de um Advogado num estabelecimento é a de não introduzir armas ou objectos que possam ser utilizados como tal, sendo certo que os guardas pedem para que se abra a pasta e depois limitam-se a espreitar o seu interior ao mesmo tempo que se passa por um detector de metais. Não gosto de fazer processos de intenções ou de embarcar em teorias da conspiração, mas a verdade é que o Dr. João Grade é o Advogado de Leonor Cipriano no processo em que esta acusa vários inspectores da PJ de tortura, de coacção grave, de ofensa à integridade física e isso tem os seus custos a todos os níveis.
Estando a cliente em prisão preventiva não podia ir recolher os seus pertences à casa que habitara até à sua detenção. Por ser estrangeira e não ter outra pessoa que o pudesse fazer, solicitou ao seu advogado que lhe fizesse o favor de ir buscar os sacos que a senhoria já teria embalado.
Como pessoa de bem, o Dr. João Grade concordou e naturalmente não abriu os sacos para examinar o que continham. Os inspectores da PJ, entre os quais Gonçalo Amaral (primeiro coordenador da investigação do caso Maddie), foram recentemente pronunciados e vão ser julgados, porque segundo o juiz de instrução existe uma forte probabilidade de serem condenados, devido aos indícios recolhidos no processo.
Por sua vez o Dr. João Grade irá patrocinar os interesses de Leonor Cipriano com o ferrete de ser arguido num processo de tráfico de estupefacientes e se isto não diminui a sua capacidade de trabalho vai seguramente diminuir a sua imagem perante o exigente tribunal da opinião pública que condena os seus arguidos mesmo sem ter provas.
Apesar de me esforçar para não pensar isto, creio que estamos perante uma situação de aplicação da velha pena de Talião, do “olho por olho, dente por dente”: para contrapor a polícias torturadores dá um certo jeito um Advogado sob investigação! Resta-me agradecer ao Dr. João Grade o que aprendi com a sua desgraça, porque depois disto não terei qualquer problema de consciência em recusar fazer um favor deste género a um cliente!...

1 comentário:

Anónimo disse...

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