quinta-feira, 1 de maio de 2008

Crónica de uma Viagem

Acabo de chegar de Paris e o rescaldo da viagem ainda demorará algum tempo a fazer.
Encontrei uma comunidade perfeitamente integrada, mas demonstrando a cada passo e em cada gesto a sua condição de portugueses. Aprendi que na região de Paris existem agora mais ranchos folclóricos em actividade, do que em Portugal, sendo as associações culturais recreativas e desportivas os verdadeiros centros culturais do nosso país por aquelas paragens. Todas as semanas há festas, concursos e eventos que não passam de um pretexto para reunir um maior número possível de pessoas, fazendo com que a música portuguesa seja a principal atracção.
Muitos jovens mal falam português, mas são os principais entusiastas destas festas e conseguem transformar argenteuil ou monrouge em Lamego ou Vila Real.
Surpresa bem agradável foi a de ter estado na Livraria Lusófona junto à Sordonne e poder apreciar tudo quanto João Heitor faz pela nossa cultura e pela nossa língua. Discretamente, sem grandes ondas a verdade é que este homem consegue manter aceso um facho de lusofonia em pleno coração da que é tida como a mais importante universidade do velho continente.
Tive o privilégio de com João Heitor proferir umas palavras sobre o 25 de Abril.
Em primeiro lugar ele teceu as suas considerações sobre o significado e a importância da data para quem estava há tantos anos fora do país e depois lá me foi dada a palavra para poder dar o meu testemunho de quem esteve na rua nessa quinta-feira de 25 de Abril de 1974 desobedecendo aos apelos dos militares que queriam que a população ficasse em casa. Fiz precisamente a comparação entre a revolução de 1385 e a de 1974, porque em ambas a acção do povo de Lisboa era/foi determinante do resultado final: quando o povo se dirigiu ao Palácio do Limoeiro aos gritos de “Acudam ao Mestre” estavam a carregar o Mestre de Avis com uma força que ele até aí não tinha; quando as ruas de acesso ao largo do Carmo ficaram pejadas de gente que procuravam acarinhar e apoiar os militares por ali espalhados, o antigo regime tinha terminado os seus dias.
A ideia brilhante da vendedeira de flores de distribuir cravos pelos soldados e que estes logo colocaram no cano das suas armas, acaba por introduzir um elemento poético no golpe militar em curso que não pode ser ignorado ou desprezado. No fundo a realidade era aquela de estar ali uma coluna militar muito mal equipada e armada, salvo erro apenas com 6 obuses e muito poucas munições quer para a auto-metralhadora, quer para as armas individuais.
Valeu no caso o maior jogador de Póker que o nosso país já teve ou poderá vir a ter e que foi o capitão Salgueiro Maia. Ele conseguiu enganar as forças sitiadas no Quartel do Carmo com uma rajada curta para a zona alta do edifício e que veio a furar os canos da água do quartel, transformando parte do edifício numa verdadeira catarata inesperada.
Foi a presença da população nas ruas que evitou a passagem de forças ainda leais a Marcello Caetano e nem sequer a PIDE saiu da sua sede na rua António Maria Cardoso nesse dia. Mataria quatro manifestantes no dia seguinte e foi só então que se colocou a questão da sua rendição e extinção. Falei também num pormenor que para mim é decisivo sobre os desenvolvimentos que a revolução irá ter e lembrei à plateia interessada que Marcello Caetano impôs a Salgueiro Maia a condição de lhe trazer um general a quem passasse o poder para que este não caísse na rua.
Ora, como é possível admitir, como podemos compreender que quem esteja a ser deposto tenha capacidade ou margem de manobra para impor uma condição como esta.
É nesta circunstância que se lembram de ir buscar a casa o general Spínola e depois os oficiais que tinham arriscado tudo acabam por arranjar uma coisa chamada “conselho da revolução” com oficiais generais de todos os ramos das forças armadas, completamente diferentes em tudo uns dos outros. Falou a voz da Hierarquia aos corações dos capitães e dos Coronéis que preferiram chamar os velhos chefes militares, mesmo que eles também tivessem velhas ideias.
Falei do país que era definido como o dos três F’s: Fado, Futebol e Fátima, e com um sorriso não pude deixar de perguntar se mudou alguma coisa.
O movimento das forças armadas prometeu-nos três D’s: Descolonização, Democracia e Desenvolvimento, hoje evoluímos para Desinteresse, Desmotivação e Desencanto.
Ninguém se convence que o regime e o sistema constitucionais vigentes estão profundamente doentes e caducos. Nada funciona porque não querem que funcione. Há quantos anos deveríamos estar em círculos uninominais e não estamos. Há quantos anos deveríamos estar num regime presidencialista e não estamos. Veja-se que os nossos políticos mais marcantes e que têm sido reeleitos com votações crescentes na sua reeleição são os presidentes da república.
Vamos no quarto presidente eleito, antes dele tivemos por ordem cronológica: Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio. Todos eles cumprindo dois mandatos. Por sua vez, os nossos vizinhos espanhóis tiveram nesse mesmo espaço de tempo quatro Chefes do Governo, a saber, Adolfo Soares, Felipe Gonzales, José Maria Aznar e José Luís Zapatero, mantendo como Chefe de Estado o rei Juan Carlos. Alguma coisa há-de concluir-se daqui, porque as diferenças são óbvias e o atraso que levamos dos espanhóis até já chegou ao Hóquei em Patins...
Cada português na Diáspora sabe perfeitamente o que quer fazer com a sua vida. Traça planos, estratégias e alcança objectivos segundo o calendário traçado. Encontrei empresários de sucesso em actividades que julgava pouco possíveis para o emigrante e assim verifiquei com muito agrado o sucesso de Armando Rio no Crédito Imobiliário e nos projectos empresariais ou o sucesso de José Gomes de Sá e Elidia Salles na comunicação social exclusivamente em Português com edições de 60 000 exemplares.
No fundo, todos eles sentem a mágoa de não terem uma palavra dos nossos representantes diplomáticos quando ela era precisa. Todavia são pessoas bem diferentes das que chegaram a França a salto à 50 anos e, por isso, já sabem que as embaixadas e os consolados são apenas locais para tratar deborucacias, porque a saudade, o patritismo, a cultura, a gastronomia, a música, essas sim são tomadas nas mãos dos interessados.
Cada vez mais vão virando as costas aos senhores que só se lembram deles para lhes pedir o voto e nada mais.
Portugal não pode perder esta sua relação com França, porque a pátria da igualdade, fraternidade e liberdade continua na vanguarda das ideias e a apontar o caminho que a Europa Ocidental deve seguir.
O nosso problema, a nossa grande questão é traçarmos os objectivos, os fins para os quais nos devemos dirigir e fazer disso um projecto comum de vida. Os meios, as estratégias e os caminhos para alcançar esses fins ou prosseguir tais objectivos são questões secundárias e meramente circunstanciais, porque a escolha pode ser múltipla sem que dai resulte qualquer prejuízo para o desejado projecto comum de vida.
Primeiro é preciso definir o que queremos e para onde vamos. Só depois importa cuidar de saber como projectamos a nossa vontade e escolhemos o nosso destino comum. Há que dar primazia às ideias e discuti-las generalizadamente sem complexos, sem limitações ou constrangimentos. Depois, então virão os homens que melhor apliquem na prática as ideias que a maioria da população reconheça como as melhores para o bem-estar e melhor qualidade de vida para todos.

1 comentário:

Anónimo disse...

ja me perguntava o que se passava durante estes dias para o blog andar desactualizado.

Sentia saudades.

cumprimentos