sexta-feira, 13 de junho de 2008

O homem que não era um, era tantos

A História prega-nos partidas e rasteiras que nos obrigam a constantes avisos aos mais distraídos, que é como quem diz aos que não sabem a verdade dos factos. Hoje, 13 de Junho é feriado municipal em Lisboa, porque num dia como este, mas no ano de 1231 morreu em Pádua Fernando de Bolhões, que usava na ordem de Francisco de Assis o nome de António. Sucede que, primeiro equívoco comemora-se a data da sua morte em Pádua e não a do seu nascimento em Lisboa, facto este ocorrido a 15 de Agosto de 1195 no local onde actualmente se encontra a Igreja que lhe é dedicada.
Lisboa continua a transformar-se na noite de 12 para 13 de Junho sobretudo nos velhos bairros onde ano após ano os arraias são a forma adoptada para a celebração popular feita de excessos. Porém, segundo equívoco o Padroeiro de Lisboa não é Sto António, mas sim S. Vicente e isto desde 1173, ou seja, anteriormente ao nascimento de Sto. António!...
Lamentável é a forma como os responsáveis políticos de Lisboa tratam a obra e a memória ainda bem viva/presente de um dos melhores filhos da cidade que nasceu nesta mesma data, mas em 1888 no nº 4 do Largo de S. Carlos, no coração da baixa Pombalina.
Esse homem foi baptizado como Fernando António Nogueira Pessoa, sua identidade civil. Simplesmente ele não era um, era tantos que libertou do fundo da sua alma, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher e Alexander Search, ainda em Durban e Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares já em Lisboa.
Espero que os mais fervorosos crentes não me levem a mal de englobar este Pessoa que também era António na efeméride do Sto. que há muito é disputado entre Lisboa e Pádua. Ao menos este meu Sto. António é exclusivamente de Lisboa e nenhuma outra terra o reclama para si, sendo que também morreu novo tal como o outro.
Na impossibilidade de o convidar para beber uma bica no Martinho ou na Brasileira, recordo-lhe, meu caro Fernando um dos poemas que o seu génio nos deixou e quero agradecer-lhe por isso:
Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro

1 comentário:

Anónimo disse...

que texto tão bonito!

magnífico, genial, enfim perfeito.

um grande abraço