quinta-feira, 4 de setembro de 2008

As explicações de um fracasso

O regime mudou há 34 anos e se nos detivermos a analisar o que tem sido a investigação criminal/policial desde 25/04/1974 facilmente concluimos que ela se tem caracterizado mais pelo fracasso/insucesso do que pelo exito.

Nestas coisas importa recorrer à experiência pessoal resultante de tudo aquilo a que assisti e acreditem - não foi pouco. Tive a sorte de ser vizinho do sub-inspector Basto Simão, um homem franzino do tipo físico insignificante, mas um polícia assombroso que alcançou a categoria de sub- inspector, por mérito e não por habilitação académica. Habituei-me a vê-lo sair de casa para o seu trabalho vestido de acordo com as circunstâncias em que o caso que tinha em mãos o exigiam. Dito de outro modo, convivi com alguem que podia perfeitamente vender a sua biografia a uma qualquer produtora de cinema ou de TV, porque a sua vida dava por certo um belo filme.

O sub-inspector Basto simão tinha as propriedades de um camaleão, confundindo-se na paisagem urbana, passando despercebido, mas sempre atento a todo e qualquer detalhe que pudesse contribuir para a solução do seu caso. Foi ele o homem que apanhou Joaquim Borrego, um serial Killer que no início da decada de 70 do século passado matou 3 ou 4 homens com quem se havia relacionado intimamente, tendo para tanto frequentado as feiras e os mercados onde o assassino trabalhava como vendedor e onde engatava as suas vitimas.
Também a ele se deve a captura do assassino do costureiro australiano Rex Scott, igualmente nos primeiros anos da década de 70 e, tal como o caso anterior tratou-se de um homicídio em que o sub-inspector Basto Simão teve de mergulhar no meio da então quase clandestina comunidade gay.
Homem de poucas falas, mereci da sua parte a consideração de algumas conversas e a troca de alguns livros policiais que ambos consumiamos avidamente. Dele ouvi pela primeira vez falar do perfil psicológico do assassino ou ainda do Princípio de Locard, segundo o qual o interveniente (ou intervenientes) da cena do crime ao entrar em contacto com a vítima ou com aquilo que a rodeia acaba por deixar vestigios decisivos para a resolução do caso .


Bem sei que os tempos são outros, sendo certo que hoje em dia não há espaço para policias solitários que fazem da sua capacidade de dedução e da sua intuição o principal traço da sua competencia e empenho, todavia não percebo estas novas decisões de repartir funcionalmente por uma quantidade de policias as tarefas da investigação, como por exemplo no mediático caso Maddie em que estiveram envolvidos nos primeiros 3 dias 47 (!!!) inspectores da PJ: é humanamente impossivel tirar qualquer proveito deste trabalho tão partilhado, porque cada um fica apenas com a sua pequena porção de um todo que nem sequer o famigerado inspector-coordenador consegue montar/estabelecer!


Actualmente um inspector da PJ passa o seu tempo a fazer tarefas avulsas para n processos que não conhece, não domina e não chegará a trabalhar de uma forma coerente. Pode muito bem começar o seu dia de trabalho com o cumprimento de um mandado de detenção, para de seguida ir fazer uma vigilância a um certo local e depois concluir o dia com a inquirição de uma testemunha, tudo em casos distintos...


Ora, as coisas não acontecem por obra e graça do espirito santo e os sucessivos fracassos da investigação criminal têm no nosso país uma causa profunda que resulta precisamente desta maneira peculiar, a demais difusa de tratar a investigaçao de qualquer crime .


Não é preciso que o tempo volte para trás, mas é urgente reflectir sobre isto e ter a coragem de arrepiar caminho e devolvendo ao trabalho individual aquilo que só um indivíduo pode resolver, embora podendo contar com a ajuda de outros colegas que assim achar necessário.

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