domingo, 16 de novembro de 2008

Os ciclos da contestação

Parecia até que os jovens portugueses tinham perdido o desejo de se revoltar contra a
tirania das gerações mais velhas. Vivia-se num marasmo onde nada acontecia que quebrasse a monotonia dos dias que se sucediam tristonhos, desinteressantes e estúpidos.
Ninguém parecia interessar-se por política, porque isso era uma enorme chatice e de repente, eis que ouve um súbito despertar das consciências dos jovens que decidiram gritar “BASTA!”.
Mais de 34 anos leva o novo regime político saído do golpe militar de 25/04/1974 e os problemas da juventude não só continuam por resolver, como também se vão agravando ano após ano, sem que se veja qualquer solução para eles.
De experiência em experiência, o ensino em Portugal não tem feito outra coisa que não seja criar técnicos de ideias gerais que passam pelo menos 12 anos na escola para saírem sem qualquer profissão!
Destruíram-se as escolas e os institutos comerciais, as escolas e os institutos industriais, como também se destruíram os liceus, tudo em nome daquilo que uns certos senhores muito ententidos em educação chamaram de escola democrática.
Em vez de se introduzirem os mecanismos próprios da democracia no funcionamento das escolas, optou-se pela eliminação pura e simples de tudo aquilo que funcionava bem em termos de formação dos jovens para as várias carreiras profissionais que desejassem seguir.
Fez-se o já habitual nivelamento por baixo, arrasando por completo o aparecimento de elites indispensáveis ao desenvolvimento do país. É com alegria que assistimos ao regresso dos estudantes à luta contra decisões esquizofrénicas que sempre procuram tramá-los, fazendo uso das manifestações de rua agora convocadas por sms, nas quais os partidos políticos não são tidos nem achados.
Mais do que nunca, hoje mais do que ontem estão reunidas as condições para que as ideias libertárias se espalhem crescentemente pelas consciências férteis dos nossos jovens.
Há uma ânsia de gritar liberdade, de mudar um estado de coisas apodrecido, de destruir quem pretende destruir a rebeldia e criatividade da juventude, exijam, reivindiquem, lutem, porque se não o fizerem aqueles que estão há 34 anos a comer da gamela do Poder, continuaram a cagar-lhes em cima e a pedir-vos que se calem, que sejam pacientes, que sejam bonzinhos, em suma, que não chateiem.


Envoquemos aqui e agora a voz de Natália Correia, porque as suas palavras continuam a fazer sentido e a mostrar-nos qual o caminho a seguir:

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Sem comentários: