(Crónica publicada no jornal LusoPressNews na sua edição de Abril de 2006)
Esperança e inveja
Nós, Portugueses, somos tidos como um povo de brandos costumes, de vícios privados e publicas virtudes.
Apesar do que dizem os últimos documentos da própria Igreja continuamos a afirmar-nos católicos e muito praticantes, não obstante os templos estarem cada vez mais vazios de crentes.
Há, no entanto, algo em que todos os analistas e comentadores estão e acordo o país está em crise e não se vê como possa sair dela tão depressa.
Tenho para mim que a nossa crise é congénita nasceu connosco quando o bom do D. Afonso Henriques não hesitou em bater na mãe para fundar um novo reino.
Paralelamente a este estado de crise permanente, encontramos ao longo da nossa história como material de suporte á nossa condição dois conceitos que são omnipresentes.
Um deles é uma virtude teologal e é a esperança. O outro, pelo contrário, faz parte do elenco dos pecados capitais e é a inveja.
Somos assim um povo cheio de esperança no futuro, nos dias melhores que virão adiante mas também ruídos pela inveja de ver os outros povos passarem-nos à frente em todos os parâmetros sociais.
Foi com esperança que abraçamos projectos colectivos como os Descobrimentos e é com essa mesma esperança que aguardamos a chegada de um qualquer D. Sebastião que nos indique o caminho para a felicidade colectiva.
Já se passaram 32 anos sobre a queda do Estado Novo e os resultados estão á vista: temos muitos direitos, muitas liberdades e outras tantas garantias que o nosso lugar é lá bem na ponta da cauda do ranking europeu!
Perante isto, na hora do desencanto, somos assaltados pela inveja que se sentimos quando testemunhamos que todos os outros têm melhor vida do que nós, ganham muito mais e vêm o dinheiro dos impostos que pagam ser investido em proveito comum.
Camões, além de exaltar os feitos heróicos lusitanos, não encontrou no seu riquíssimo vocabulário outra palavra para fechar “Os Lusíadas” que não fosse inveja e ninguém duvidará que ele sabia muito bem do que falava.
quarta-feira, 12 de março de 2008
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